A esperança é um demônio pérfido e, em meu
ver, o pior de todos os monstros deste mundo. Sua engenhosidade maléfica sempre
foi admirável. Pensem: quando Pandora abriu a caixa do caos, quem foi a única a
ficar para trás? Quem permaneceu na caixa, continuou ali em seu cantinho, e
assim se alojou no âmago do coração humano? Pois é... Os deuses mandaram o
caixote para foder com a humanidade, puni-la até os confins do tempo. É burrice
ou ingenuidade demais de nossa parte achar que dentro daquele presente de grego
haveria algo de bom.
A natureza da esperança é parasitária e ela
vive em simbiose com o organismo que a possui. A sutileza e a habilidade de tal
ato são tamanhas que poucos chegam a notar isso até ser tarde demais, como os
cordeiros que não enxergam a lâmina do abatedor até ela já estar cravada em
suas gargantas. O mecanismo de funcionamento na verdade é inteligentemente bem
simples. Ela nos coloca em seu colo, nina, dá o seio para nos alimentar, como
se fosse nossa mãe, e caímos na tentação de experimentá-lo para sobrevivermos.
Mas as glândulas mamárias estão vazias, mais secas do que uvas passas, e nossas
bocas já estão na botija, e estamos sugando aquilo como se não houvesse amanhã.
Ludibriados, nunca reparamos que o leite não sai. A sensação aprazível que
sentimos no momento é uma toxina liberada pela criatura. Um veneno que alucina e
vicia. Pura ilusão em forma de prazer.
Ao final do dia, somos nós que nutrimos a
esperança no processo todo. Somos nós que a alimentamos e a deixamos mais forte
enquanto enfraquecemos e definhamos com o andar da carruagem. Ela nos derrota,
e assim tornamos-nos servientes aos seus caprichos.
É o demônio mais perigoso por ser o mais
atraente de todos. Aranha gorda que com sua teia nos pega e devora. E sempre
cairemos nessa. Estava nos planos de castigos divinos. Você não recebeu o
memorando?
Esperança é inevitável.