domingo, 21 de outubro de 2012

Água e Areia


Dias de viver, dias de sobreviver
Dias de perder, dias de ganhar
Dias de morrer e de renascer
Dias de escrever e de cantar

Dias de comer, dias de ser
Dias de não ser, dias de amar
Dias de esquecer e de sofrer
Dias de sorrir e de se alegrar

Dias e dias, de relembrar
Dias de sonhar e fantasiar
Trezentos e sessenta e tantos
Dias para poder se contar

Passam as estações, passam areias
Passam águas e nelas, sereias
Carregando tempo nas mãos
Afogadas na cronologia estão

Encantadas no outono
Fadadas ao inverno
Noites de verão
Primavera e solidão
Dias e mais dias...
Consolação, só amanhã.
Um cadinho de redenção...
Passa água, passa tempo, passa...
Passa areia, passatempo, passa...
Passa arado, passado, passa...
Passa paz, passarinho, sobrepassa...

Sorte que inventaram o amanhã para ganharmos um novo dia.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Petrificação de um suicida


Sob a pesada chuva de um mês qualquer
A petrificação de um suicida chanceler
Jogou silhuetas arabescas na calçada
Sempre chega sua vez de ser a chamada

Crianças jornaleiras vendiam o ultimato
Dos últimos dias desse mundo assaz chato
Divagações, divagações, nenhuma brincadeira
delirium tremens de sábados a sextas-feiras

Letras garrafais anunciavam “Extra! Extra!”
“Cientistas provam que a alma não presta!”
“Estaríamos melhores sem ela, é deveras!”
“Desapegados de emoções, vis esparrelas!”

Sob a pesada chuva de um mês qualquer
A petrificação de uma suicida mulher
Jogou silhuetas arabescas na calçada
Sempre chega sua vez de ser a chamada

Auto-Retrato


Hoje escrevo, escrevo porque não mais aguento!
Gritam com roucas vozes rubras os corvos cegos da Fúria
Entoando canções de angústias e malogradas farsas nas câmaras
De ventrículos, habitadas por ódios, vazios feridos e cicatrizes ocas,
Antigamente um lar da perdição humana (extinta chama, extinta chama. Clama!).
Pistões agora injetam o veneno amargo da cólera na árvore das artérias.
E vão nadando, e vão pulsando... E vão valsando, e trepidando...
Bombas nucleares, bilhões de sóis soturnos em miniaturas cinzentas que
Acendem duas supernovas em minhas magras órbitas oculares. Prosas.
Explodindo, destruindo, a tudo consumindo, zombeteiras, rindo
Rios de pálidos glóbulos vagando até os confins antimateriais do cosmos.
Tem baba de intensa e suprema raiva escorrendo nessas entrelinhas,
Cuidado para não se manchar com versos inundados de sangue.
Vire as páginas com cautela! Não vá querer ver meu furor em rinhas
Se abatendo sobre sua carcaça tal qual ave de rapina em caça.
Jugulares abertas com afagos de garras, portas escancaradas,
Prontas para receberem a eucaristia profana de todas as iras,
Guardadas outrora em caixa de Pandora, setes chaves de tranca.
Quero ruínas. Esmagar montanhas e planetas com o polegar.
Quero destruição e caos e que a Morte seja coroada Rainha da Vida.
Urro pelos corredores da loucura desejando derrubar os dominós,
Chutar o quebra-cabeça das divindades, quebrar seus pescoços,
Arrancar os olhares passivos de seus escravos e morder seus ossos.
Não se metam comigo. Não tentem, nem ousem. Não joguem com a Sorte.
Até ela, senhora da Roda, sempre vencedora e abatedora dos fortes,
Não é páreo para um filho das sombras e do inverno do Norte.

[Este é um poema das antigas. Não mudei muito, não...]

Pensamentos


 A neve tem uma graça que apenas ela possui em sua queda.

 A folha tem uma beleza que só ela detém quando dança nos braços de seu amado vento.

 Há na tempestade o mais lindo e mais mortal show de luzes.

 O sol e a lua possuem um amor secreto, onde um corre atrás do outro sem saber ou perceber que se perseguem num eterno pega-pega pelos campos celestiais.

Contemplação

  Às vezes, ela é a melhor forma de aprendizado. É o conhecimento que vem do silêncio de todas as palavras, a experiência de admirar o mistério e comungar com ele.

Loki


Basta! Já estou farto desta farsa!
Esgarçaram-se os fios desta trama.
Tênues linhas de sigiloso drama
Que por alhures e além se esparsa.

Balancem dançarinas, enfeitando praças!
Marionetes sufocadas pelo desenlace.
E que mil gotas prateadas rolem pelas faces
Esparzindo males de destruição e desgraças!

Ó, mares de títeres e bonecos desmembrados!
Ó, marés de sorrisos irreverentemente rasgados!
Quantos oceanos convulsivos e confusões no ato!

Há um deus zombeteiro nos observando dos degraus,
E alguns dizem ser ele a mais pura força do caos:
Um rosto incógnito que permanece em anonimato!

Mundo Thelemático


Um mundo thelemático, onde tudo é da lei
Tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno
Lugar recheado de fumaça e espelhos
Por que nascemos, vivemos e morremos em caixas?
Por que preferimos o confinamento nestas coisas
Frágeis
Quando há cem confins siderais esperando lá no alto?
Quando há sem fins de espaços aqui do nosso lado?
Deixamos que risquem nossas cabeças de fósforo
Pois somos o combustível que alimenta a Máquina
Somos o flagelo que consome a carne divina
Somos o verme que abre caminho pelas órbitas vazias de Deus

O preço da liberdade

[Inspirado pelo poema da Rachel. Não é uma resposta ao mesmo, e sim uma fábula envolvendo o mítico grifo, e o que ele me ensinou quando do nosso encontro]:

O grifo machucado, lá das alturas alvejado,
Cai num tango de morte e vida, derrubado
Pela mira certeira de um arqueiro mortal
Invejoso de seu dom das asas, liberdade tal
Que só o grifo em seu voo há de ter apreciado.

Mas o animacida, ao aproximar-se da fera abatida,
Vislumbra em seus globos vítreos, refletidas,
Sua própria estrada cega e carência de amor
E agonia, mesmo tendo o grifo asas para ser ator
Da maior encenação de alvedrio já conhecida.
 
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