São
poucos os que conhecem realmente bem a noite, fazem parte dela, íntimos das
trevas como amantes ou filhos de seu útero érebo. Corujas e morcegos sabem do que
estou falando. Sabem como é o gosto do orvalho na boca, conhecem o som dos
sonhos, a aspereza das estrelas e a suavidade do luar, e estão familiarizados
com o perfume da esperança e o fedor do medo pairando no ar cheio de possibilidades
latentes.
Você pode ser caçador
e caça, visível e invisível, pode até ser alguém que cavalga o vento e a própria
escuridão, ou ser alguém abatido por eles antes de sequer conseguir gritar. É a
hora das fantasias e a hora das verdades.
Segredo que
lhe confesso, só as corujas, os morcegos e as pessoas alimentadas pelas tetas
da via láctea ficam de fato admirados quando o sol lança seu primeiro raiar
sobre as terras maculando toda a beleza negra melancolicamente feliz da pérola
noturna, e apenas eles detêm o mistério da sobrevivência das sombras projetadas
pela luz.
Noite,
me abraça.