domingo, 27 de maio de 2012

Considerações de uma breve vida - 1

Cada artista tem sua arte, uns pintam, outros cantam, dançam, escrevem... Cada um com sua utopia de liberdade, ou seria liberdade utópica?
Eu sou uma artista, coisas banais me inspiram. Tiro proveito daquilo que não querem ver, sigo, sob o luar, a trilha que as pessoas temem falar durante o dia.
Mas, da minha arte ninguém partilha. Ela é forte, extrema. Não serve para fracos e nem para fortes, apenas para mim.
Ela faz do cosmos seu espectador, é sentida em qualquer lugar do universo, mas apenas por mim.
Seu alimento é seu próprio amor, sua própria admiração. Sua força sou eu.
Me disseram que ela era proibida, criminosa, assassina. Que não tinha limites, que eu me excluiria, e que eu acabaria voltando pra mim mesma.
Pra ser sincera, não poderia agarrar-me a nada mais perfeito que ela. Pra todos é um ouro de tolo, pra mim, sou eu, simetricamente perfeita.
É minha resolução, minha prática e teoria. É meu ópio, minha cura por sangria.
Minha arte chama-se fracasso, ou seria eu a arte do fracasso?

sábado, 26 de maio de 2012

Depois do fluxo


Depois do fluxo, a confusão, o vazio. A tormenta criativa passou,
Deixando escombros de ideias e versos fragmentados
Esparramados por todos os cantos.
Ébrios neurônios cambaleando pelos jardins da gramática,
Procurando alguma literatura para exorcizar seus demônios.
Entorpecimento. Tudo lento. Digno de lamento.
Calou-se o estro, chama minguante como o sorriso da lua.
Que tristeza.

domingo, 20 de maio de 2012

O garoto com o cabelo de fogo


Com suas mãos finas e brancas a terra ele escavou,
Sob o luar frio e infinito,
Procurando o amor escondido,
Mas fora um pergaminho que encontrou.

Nele, foram lacradas com palvras suas projeções e seus sentimentos
Restando ao garoto o Coração de Pedra,
Que, assim como o adubo, medra
E lhe serve de alimento.

Como uma alma fora do corpo
Ele via o rio correr
Voltando à fonte para beber
A água mais pura e não a virgem madura.

O amanhã já estava caindo,
Começou logo se despindo,
Sem resolver o que o ocupava,
E desenhou uma velha cena

Dizem que tal garoto nunca mais fora visto
Pois apaixonou-se tão completamente pelo fogo de suas palavras
Que, no rio-espelho das madrugadas,
Abaçou a morte e disse: “leve-me pois me descobri, sou a chama de Narciso”.

Olhos abertos

É um sol quente
Em um inverno gelado,
Entra na alma e a derrete
Anula e cria-me, psicodélico.
Minha caça se aproxima
E a arma está pronta,
Na floresta, tenho munição infinita
E ela, olhar fixo em minha cabeça.
Entra e sai dos meus olhos sem pedir
Não há tensão,
Entorto meu corpo e lá está o ferrão,
Ainda assim, deixa-me insistir.

Saudade

  Quando alguém vai embora, a saudade é o amor que fica...

sábado, 19 de maio de 2012

Lições Para Toda Vida


  Estava sentado lá fora, no colo da noite, escutando seu calmo e lento respirar. Posso jurar que por vezes nesses momentos consigo ouvir as batidas do coração de Deus. Olhei para os céus e vi uma estrela em sua flamejante carruagem desbravando a nossa atmosfera de um horizonte a outro. Sua cauda de caleidoscópios se estendeu tal qual véu de noiva, uma noiva celeste, e nela havia uma carta amarrada.
  Estendi a mão como se soubesse que era para fazê-lo, e ela se soltou e veio até mim como num passe de mágica. O papel, meio carcomido pelas intempéries cósmicas, continha letras miúdas, garranchos escritos em gelo, fogo e ébano. Reproduzirei aqui exatamente aquilo que li:

  “A vida é eu, tu, ele e ela, nós, vós, eles e elas.
  A vida é uma navalha. Andamos por sua afiada lâmina, e é preciso ter cuidado, mas não devemos temê-la. São muitos os que receiam a mão que a manuseia, e por causa disso preferem não ousar dar nem um mísero passo. Ficam parados, e ali passam todo o tempo até a hora derradeira alcançá-los. Mas que medo mais bobo, não enxergam que a mão que empunha a navalha é a deles mesmos? Cada um controla sua própria lâmina. Às vezes nos cortamos e manchamos tudo de sangue e lágrimas, sim, porém aprender a aproveitá-la direito leva anos e anos de prática, e machucar-se faz parte do aprendizado. Além disso, quem disse que estamos sozinhos nesta árdua tarefa? Em vários momentos necessários temos uma mão invisível guiando a nossa, como um pai guiando seu filho, ensinando-o a ter segurança e firmeza ao segurar coisa tão pequena e preciosa.
  A vida é um precipício. Estamos bem na boca do desfiladeiro, a melhor solução é saltar. Alguém acreditaria em mim se eu dissesse que podemos voar? Pois podemos. Ninguém falou que o fundo do abismo é o único destino quando pulamos direto nele. Existe um par de asas para todo ser vivo neste universo, bem nas costas, e ele se chama crença. A fé não move montanhas. Ela nos faz passar por cima delas, nos faz agarrar nuvens, e tocar planetas e dedilhar cordas de violões feitas de átomos oníricos. Sonhos que cabem em um belo e singelo lá menor.
  A vida é um travesseiro. Rodeada por trevas e sombras, recheada por coisas que se esgueiram na escuridão tanto exterior quanto interior. Às vezes esse travesseiro parece um objeto duro demais, suportando cabeças pesadas demais onde apenas pesadelos arriscam habitar. Às vezes, contudo, parece ser um tecido macio, leve como uma pena, em que encostamos para descansar, e neste ato ele vira um seio materno que acalenta e alimenta nossos lábios sedentos por fantasias e esperanças. É o cavaleiro que vigia, protegendo a imaginação reflexiva da fagulha divina existente em tudo e em todos. Veja, lá está!
  A vida é morte, e a morte é vida. Ambas são dois lados da mesma face, dois pontos do mesmo caminho, duas estações no mesmo tempo, como da primavera ao inverno. Saiba que sob o implacável sol do mistério jaz a cobra que morde o próprio rabo, o laço interminável representando o ciclo perpétuo das coisas. Não devemos ter medo do fim, nem do começo, e muito menos do meio. Quando a Morte vier, no segundo em que for realmente para ela chegar portando foice e paz, deve ser recebida com um abraço por ser velha amiga íntima, e um banquete por ter uma fome que tudo n’algum dia devora. Cortejá-la e aceitá-la, mas só quando a última areia da ampulheta atingir o topo do monte na devida hora. Antes disso, jamais se esquecer de viver. É uma luta brava, mas recompensadora tanto aqui como no que vem a seguir.
  A vida é milagre. Vencemos a corrida dos espermatozoides. Você pode alegar que foi um evento aleatório e que qualquer um daqueles microscópicos cabeçudinhos poderia ter ganhado, mas e daí se foi isso mesmo que aconteceu? Pode ser que tenhamos sido escolhidos e/ou abençoados, ou que sejamos puramente sortudos e/ou trapaceiros. Não importa. O que importa é que estamos aqui, dentre zilhões de possibilidades e probabilidades, nascemos, e isto nos transforma num acontecimento prodigioso, inigualável. Somos miraculoso fato.
  A vida é Amor. Com letra maiúscula porque é o verdadeiro, muito além do sexo e dos relacionamentos emocionais, embora no âmago contenha ambos. É o dom de unir e comungar as almas. O todo em si e o todo em dois que se somam. Juntos, seja como família, como amantes, como amigos, ou apenas seres vivos, somos a totalidade, somos Deus em seu extremo poder, onisciência e onipresença. Geramos vida, renovamos, renascemos, legamos. E, de especial maneira, ultrapassamos os confins do finito e superamos até mesmo o infinito. Afinal, criamos mundos com a mente e o coração, e neles colocamos parte da essência e do todo que há em nós.
  Pensando melhor, a vida simplesmente é, e em meramente ser está completa”.

  Fechei a mensagem vinda do desconhecido além Terra e dei um sorriso. Quem quer que tenha sido o autor dessa página perdida de livro de autoajuda sideral, alienígena ou divindade, sabia o que eu estava enfrentando ultimamente. E me enviou luz e sabedoria. Sou lhe grato por isso.
  Estava incerto do meu estado. Após tantas mortes vividas e vidas morridas, pensei que já fosse um zumbi. Agora sei que sou humano, estou vivo e tenho Amor. E que isto para mim basta.
  Felicidade maior não há.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cthulhu ficaria orgulhoso


Não, não sou um homem de letras.
Que definição barata!
Por que insistem em me chamar assim?
Posso até não ser feito de carne e ossos,
Certo de que minha matéria é tinta e páginas.
Mas, antes, deviam notar que sou imaginação
Como vocês,
Pois é isto que nos faz homens.
Letras são apenas ferramentas, meus caros
Para construir palácios monumentais
De maravilhas perdidas
Em reinos de faça o que quiser.
Alguns detêm mais habilidade
No manuseio dos instrumentos,
Outros menos.
Alguns terminam sendo rústicos,
Enquanto outros se aprazem rebuscados.
Mas cuidado! Ocorre que, com um punhado
De fantasia e uma boa dose de loucura,
O ato de gerar novas realidades acontece
Automaticamente, e isto
Magicamente
Nos transforma
Em meros veículos.
Reparamos tarde demais:
Não somos nós quem controlamos as histórias
São elas que nos controlam.
Não as temos em mãos
São elas que nos têm
E nos usam como mero transporte físico
A fim de se espremerem pelas
Rachaduras
Entre
Dimensões...
As palavras tinham o maligno plano de dominar o mundo.
Já conseguiram.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Grifo 

Vivo e morro todo dia
Sem foco, sem amor
Parece um tufão de agonia
Mas, então, sinto uma leve paz

Emana de minha visão aquilo que faz
Aquela flecha que atinge
O raio que cai
O pensamento que age

Tal paz aumenta,
Sinto-me um grifo
Voo, com razão,
Sem bater a asa que proteje o ouro 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Barrabás Teodoro Barnabé da Montanha [divaga]

  -   É bonito, não é mesmo, rapaz? Todo este oceano, se estendendo infinitamente rumo ao inexprimível. Faz você imaginar o que existe além do lugar onde o céu e o mar se beijam e as estrelas se deitam... Terra? Magia? Morte? Talvez um deus, sentado num grande trono dourado, coçando a própria barba e rindo de nossas tolas tentativas de entender o que de fato são o mistério e o desconhecido...
  "Sabe, o problema do homem, a meu ver, é não conseguir enxergar nada que esteja um pouco a frente de seu limite de visão. Nos falta perspectiva, garoto. Vivemos presos num mundinho de três dimensões e estamos fadados a lutar pela nossa tridimensionalidade. Tudo quanto é batalha, das enormes guerras ao trivial cotidiano que enfrentamos, cada gota de suor e sangue derramados por nós foi, é e será por espaço e tempo. Você deve tá achando que estou resumindo ou simplificando demais as coisas (nem Einstein que era um gênio conseguiu uma lei universal, quem sou eu para ousar tanto), mas pense comigo por um instante: a gente não briga por um lugar no mundo e na vida das outras pessoas? Sim, afinal queremos ter um pedaço do mapa geográfico para morar, e queremos conquistar as pessoas que nos cercam e mais ainda aquelas que amamos. Desejamos entrar e se aconchegar num canto de seus corações e mentes. E isto já não é uma disputa pelo tempo? Ser lembrado, recordado... É inegável. Nunca conheci alguém que não deixasse uma mísera marca que fosse, de algum modo, ao passar por este planeta. Alguns deixam seu legado através dos filhos. Perpetuação da espécie. Ah, tenho uma história bacana sobre heranças, se você quiser escutar. Posso te contar... Hoje não? Ok, então. Fica pra próxima vez. O meu ponto, meu caro, é que desde a corrida dos espermatozoides até o último suspiro, cada ser vivo existente está fixo nesta constante espaço-temporal. Por ironia, a morte é nossa liberdade, no final de contas. Karma é mesmo uma vadia, não é?".


  Pequeno trecho de fala de uma história em produção (pretendo transformá-la em quadrinhos um dia).
 
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