terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mar do Universo

Para uma mulher inalcançável
Não basta um amor normal
Ela nunca conhecerá teus abraços
Nem o calor de teus lábios
Nem as profundezas de teu coração

Só saberá de ti quando a olhares
Só te conhecerá pelos teus gestos
Os mais simples, e os mais tolos
Rirá de tuas piadas e de tuas histórias
Dividirá as dela, chorará contigo
Quando a noite chegar e lhes envolver

Mas, mesmo assim, não te amará
Não da maneira como tu a amas
Não que seja impossível alcançá-la
É apenas improvável: ela está em outro
Outro amor, outro plano, outra vida

Para uma mulher dessas, longínqua
Para qual você existe somente nas sombras
Sempre a colocar a mão sobre as dela
Sempre a tocar-lhe com leveza o rosto
Carregado pelo vento que canta ao soprar
Só existe um tipo de amor

Fora do espaço, fora do tempo
Um amor sem amarras, sem condições
Infinito e eterno em seu amar
Mar do universo

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

(Di)Fuso Horário


  Ser insone tem suas vantagens. Por exemplo, consigo sentir milhões de sonhos pairando no ar, remexendo enquanto flutuam noite afora até as raízes coletivas do universo. Alguns são leves, belos, coloridos, ao passo que outros são pedregosos, sofridos e assustadores. Basta me mexer e esbarro em um sonho ou pesadelo alheio. Gosto de fazer uma brincadeira: escolho uma dessas histórias errantes, seguro ela em minhas mãos e escuto o que está dizendo. Como um punhado de areia onírica, cada grão escorrega por entre meus dedos cantando canções de terras longínquas, absurdos e delírios, verdades e revelações. Sentado em volta da fogueira, atencioso para o xamã cuja sombra se ergue gigantesca no vale, contrastante com a alva lua que navega em seu oceano de estrelas, eu me perco pelos labirínticos caminhos da narrativa que preenche o mundo naquele instante. Crio asas, sou Ícaro, mas não caio quando voo perto do sol. Ao contrário. Comungo com ele, envolvendo-me em chamas, virando fênix e cinzas. Delas renasço, desperto. Olhos abertos, percebo os sulcos no rosto do velho, e neles há palavras escritas, como se fossem linhas em um livro. Ele para de contar o que estava contando, ciente de que agora eu havia enfim notado que cada ruga e marca em seu corpo judiado pelo tempo falavam por si mesmas. Eram tantas histórias, tantas vozes destoantes e simultaneamente em uníssima concordância, todas boiando como bolhas de sabão em direção aos céus, elevadas pela invisível força da imaginação, tais quais os sonhos que durante a noite capturo e ouço. Guardo-as em meu coração. O cérebro se esquece de certas coisas, o coração sempre lembra.   Acordo dos devaneios ao cair do último grão morfético. Agora vou dormir.

  Talvez seja um sono eterno. Espero que alguém brinque comigo da mesma maneira. Pode ser você? Tenta, vale a pena. Toma-a em punho e comece, você sabe todas minhas aventuras e desventuras. Elas estão aí dentro de ti. Abra a porta, escolha uma. Meu legado são as estruturas da imortalidade de todos os humanos...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Anjas

 
Filha das supremas alturas
Uma bela presença obscura
Anja de asas negras e luas
Eclipsadas, veio a mim, nua
 
Irradiava trevais mais pura
Tal memória ainda perdura
Desenhada na mente, na rua
No palco onde a vida atua

Pelas calçadas e alçadas
As rubras pernas esticadas
Revelam segredos arcanos

As anjas jazem cá deitadas
Lindas pérolas espalhadas
Por mil e um confins humanos

Novembro

Novembro é velho, desgastado pelo tempo,
Carcomido por memórias e histórias.
Sua pele tem a textura e o perfume de livros
Guardados há tantos milênios que até as traças
Já o esqueceram.
Ele se veste de neblina, esconde sua nudez lasciva
Nas brumas e no mistério.
Caminha, quieto e só, erguendo estrelas à sua frente
Enquanto as cola com saliva no quadro da noite.
Novembro carrega palavras nos bolsos esfarrapados,
Arrasta penas nos calcanhares herméticos,
Tem em seu peito o coração das trevas e das criaturas que lá habitam.
Ninguém vê seu rosto, ninguém realmente o conhece.
Segue, angelical e demoníaco, sacro e profano,
Cavalgando tempestades na companhia de gigantes e antigos deuses.
Cai na chuva, lamenta no trovão e vive no raio.
Novembro é mês e ser.
É um pouco de mim e um pouco de você.
 
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