quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O menino peregrino

Ando, caminho, corro...
Entre os limites da razão.
Com idéias ocorre a transformação
Do ordinário garoto em peregrino.

Cinzento vai, através do deserto
Que não é bem um deserto...
Imaginação é o nome da terra
Onde mito e realidade se confundem.

Vagando, vagante, vagabundo...
Basta um mísero passo:
Saio dos domínios da sanidade
E adentro os reinos da loucura.

O louco, veja bem, não difere
Do poeta e do amante.
Um só enxerga demônios,
O outro observa as estrelas...

O terceiro, ah, o pobre tolo
Apaixonado vê a beleza oculta
Em cada flor, em cada música,
Em cada demônio, em cada estrela...

Três é um número mágico
Triplamente amaldiçoado
No mundo real, lar de sonhos mortos,
Lugar de menino jamais peregrino.

Sabe...

Se conseguisse pôr
Em palavras o meu amor
Construiria uma escadaria
Ligando o céu ao que seria
O meu paraíso.

No meu paraíso
Não haveria
Dia do Juízo
Apenas canção
O tom de um violão
E amor sem fim.

Haveria, sem
Um belo jardim
Repleto de flores
E uma mulher flor
Perfumando minha vida
Em forma de amor.

Haikai 2342


Quem és tu que vens a mim encoberta de beleza e mistério?
Quem és tu que chegas ao findar do rigoroso inverno?
Não sabendo teu nome, posso chamar-te Primavera.

Perfeita Simetria

Se você soubesse, o que seria?
Algo mudaria? Teria magia?
Com seu doce perfume de rosa
Continuaria você amorosa?

Certo como a noite e o dia
Meu amor por ti prosseguiria
Pois acho que o sorriso seu
Roubou alva lua lá do céu

Junto, foi-se meu coração
Queimar com estrelas na paixão
Mas e quanto a você, desistiria?
No anel de fogo do amor cairia?

Responda-me com seu belo olhar
Que me faz sorrir e arranca o ar
Que mão ou imortal ousaria
Traçar sua perfeita simetria?

Peço perdão por este poema
Improvisado, simples centelha
Do que eu sinto por você
Minha querida amiga, meu alvorecer.

Epitáfios


[Perdi minha última bisavó há pouco tempo... Este é um poema feito de luto, pranto e muita saudade]

Pai? Mãe?
Me dá um copo d’água?
Eu te amo...

Sopram palavras em redemoinhos pela janela entreaberta
Trazendo os últimos versos para aqueles ouvidos cansados
Tolhidos pela solidão, quietos na cama, esperando a ruína...
Um clarão nas trevas da torre prenuncia o brado dos céus
Enquanto poemas de memórias e saudades fazem sua dança
Figuras misteriosas de folhas e pó se abraçando no vendaval...
A umidade beija com carinho especial a testa dos moribundos
A natureza respira e prende o fôlego, tudo por um instante pára
Imagens congeladas, presas por tachinhas ao tecido do tempo...
Movimento
Os raios vêm como lâminas agudas deixando cicatrizes na noite
Buscam seu destino no mesmo local do nosso eterno descanso
Os primeiros lamentos dos anjos caem junto com o telhado fendido...
Abalam-se as estruturas, a tempestade se assoma e você se levanta
Nos corredores da loucura corre, se debate contra as paredes e uiva
Sem ver o fim, uiva. Perdido nas trevas, uiva. Usa camisa de força...

Aqueles que se foram estão em lugar melhor, mas os que aqui ficam
Ficam com a chuva nos olhos da terra e a chuva na terra dos olhos...
Ficam ensandecidos pela perda, endoidados pela mudança repentina,
Pelas rupturas e guinadas abruptas naturais da tempestade...
Pelas figuras de folhas e pó que pelos vendavais festejam...
Pelos epitáfios que reverberam nos salões de seus peitos:
Não existia calmaria antes da tormenta, por que haveria de haver agora?
A paz é mérito e pertence aos poucos que fizeram o que precisava ser feito.
A trilha das lágrimas. Caminhe na trilha das lágrimas. Uiva. Uiva. Morra.
Renasça.

Mãe? Pai?
Me dá um copo d’água?
Eu te amo...

Augusto


Talvez precisemos de um Augusto dos Demônios
Para escarrar em nossos rostos de falsos santos
Apedrejando, apedrejando nossos dorsos, acalantos
De uma mão que retira nossos mantos de lacônios

Dos Anjos foram muito fracos os frios cânticos
De mais penumbra e ácido tadúkico careceram
Carregadas penas que luzes apenas conheceram
Profundezas rasas mal comparadas ao Atlântico

Suas colunas de rimas em dominós organizadas
Chafurdaram entre nuvens – mas que atividade infiel!
E aos tropeços, aos tombos, foram diabolizadas

Talvez seja necessário nos afastarmos do céu
As estradas infernais são por nós pavimentadas
Augusto dos Demônios merecia é um troféu!

Mnemosine


Olho para o passado, contemplo por entre nuvens lembranças
Adentro a mansão das memórias passando pelos portões retorcidos de tanto serem usados
Espio pelas janelas pintadas de pó, mas só vejo sombras e ouço sussurros
Quando crio coragem o suficiente, meus dedos percorrem o ferro da chave
Sinto o frio familiar e as ranhuras do tempo ao pegá-la
Giro a maçaneta, preparado para receber uma lufada de mofo e teias de aranha na cara
Nada. Apenas o pesar do silencio cortado pelos meus passos ecoando pelos corredores vazios
Tudo está como estava na última vez que vim, talvez até mais arrumado do que me recordo
Cenas de eras se desdobram nos quadros das paredes, com seus protagonistas me fitando enquanto caminho
Sei que por trás das portas há sonhos e fatos se misturando numa orgia cronológica
Por escadas até a Torre eu sigo. Minha mente se estica como manteiga sobre o pão conforme subo
(Vou chegar perante o quarto e...)
Paro perante o portal mais alto, enfeitado por dourados entalhes, um nome e um símbolo
Respiro profundamente, me preparando como nadador antes de mergulhar no precipício
É o quarto especial e ela está lá dentro. Sempre esteve.
Entro em paz, indo para um lugar onde não existem mais palavras.
 
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