[Perdi minha última bisavó há pouco tempo... Este é um poema feito de luto, pranto e muita saudade]
Pai? Mãe?
Me dá um copo d’água?
Eu te amo...
Sopram palavras em redemoinhos pela janela entreaberta
Trazendo os últimos versos para aqueles ouvidos cansados
Tolhidos pela solidão, quietos na cama, esperando a ruína...
Um clarão nas trevas da torre prenuncia o brado dos céus
Enquanto poemas de memórias e saudades fazem sua dança
Figuras misteriosas de folhas e pó se abraçando no
vendaval...
A umidade beija com carinho especial a testa dos moribundos
A natureza respira e prende o fôlego, tudo por um instante
pára
Imagens congeladas, presas por tachinhas ao tecido do
tempo...
Movimento
Os raios vêm como lâminas agudas deixando cicatrizes na
noite
Buscam seu destino no mesmo local do nosso eterno descanso
Os primeiros lamentos dos anjos caem junto com o telhado
fendido...
Abalam-se as estruturas, a tempestade se assoma e você se
levanta
Nos corredores da loucura corre, se debate contra as paredes
e uiva
Sem ver o fim, uiva. Perdido nas trevas, uiva. Usa camisa de
força...
Aqueles que se foram estão em lugar melhor, mas os que aqui
ficam
Ficam com a chuva nos olhos da terra e a chuva na terra dos
olhos...
Ficam ensandecidos pela perda, endoidados pela mudança
repentina,
Pelas rupturas e guinadas abruptas naturais da tempestade...
Pelas figuras de folhas e pó que pelos vendavais festejam...
Pelos epitáfios que reverberam nos salões de seus peitos:
Não existia calmaria antes da tormenta, por que haveria de haver
agora?
A paz é mérito e pertence aos poucos que fizeram o que
precisava ser feito.
A trilha das lágrimas. Caminhe na trilha das lágrimas. Uiva.
Uiva. Morra.
Renasça.
Mãe? Pai?
Me dá um copo d’água?
Eu te amo...
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