terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Cotidiano
Acordo. O amanhecer me assusta. O
ar carregado de orvalho e possibilidades latentes mescladas com a incerteza do
que virá a partir do momento em que meus pés saírem da cama e tocarem o chão eriçam
os pelos de minha nuca. Talvez existam surpresas nas sombras. Meu coração
palpita, alucinado. Junto coragem e me levanto. Faltam exatamente vinte e
quatro horas para o terror e a tensão recomeçarem. Até lá, resta-me a rotina.
Comunicação
Eu me escondo atrás de palavras e
mais palavras. São minha espada e meu escudo. Às vezes, espelho. Como assim, às
vezes espelho? Nem sempre elas refletem o que realmente quero dizer ou o que penso.
Simplesmente criam vida própria. Saem pulando e brincado do útero da gramática
direto para a tinta e o papel ou para a língua, e destes correm para o mundo,
trazendo suas alegrias e atrocidades na bagagem. Fazem bens e maus que nunca
desejei causar. Seja esmagar borboletas que resultam em terremotos, seja roubar
o sorriso puro de uma criança ou uma lágrima de qualquer um. Coleciono lágrimas,
tenho de todos os sabores e tipos.
Eu falo mais com o silêncio e com
os olhos. Quem quiser me conhecer mesmo, que os encare. E aceite algumas
palavras de vez em quando.
A Bendita Maldição de Pitágoras
Apesar de odiar matemática,
inevitavelmente, pela ironia que rege o mundo, sou o resultado de somatórias,
subtrações, divisões e multiplicações. Devo aceitar isso, e você também, por
mais que odeie matemática como eu. Tem certas coisas na vida que ao negarmos acabam
em zero.
O Tolo
Um dos pés atravessa a porta. Por
um minuto ele pára. Hesita. A estrada se estende rumo ao desconhecido horizonte
à sua frente, até perder-se de vista. Sempre quisera fazer aquilo. Respira
fundo e avança. Com passos repletos de temor e ousadia, segue o viajante,
peregrino, vagante, aventureiro de alma errante, despreparado ao que encontrará
no final do caminho. Só uma coisa sente em seu coração: que a paz, este desejo supremo
de seu ser, está em algum lugar, lá e de volta outra vez.
Mal sabe que ela jaz dentro dele,
dormente. Precisa apenas ser notada e despertada. Tal qual um dragão.
JK Rowling estava errada.
Colibridéia
Tenho certeza que uma ideia
passou por aqui. Bateu asas, soltou um punhado de titica, resmungou algo incompreensível,
provavelmente insano, e então partiu. Devia ser genial, pelo visto. Adubou
minha mente bem o bastante para escrever que ela passou por aqui.
A placa e a caixa
Deveria colocar uma placa em meu
peito com os dizeres: Cuidado! Terreno perigoso!
Tem pessoas que não possuem a
mínima noção de onde estão indo. Em que lugar adentram ao pisarem nas paragens
rubras das cavidades exangues. Não sabem o que veem quando observam a casa
pulsante habitada apenas por um velho com suas poeiras e histórias. Nem ousam
chegar mais perto, conhecer quem ali reside. Muito menos arriscam perguntar
sobre a caixa cuja fechadura projeta um feixe de luz que atravessa uma das
janelas, jogando a única luminosidade existente no território selvagem, escuro
e vazio que há lá fora, como um farol bruxuleando à beira do infinito oceano da
noite. O que tem lá dentro? Os corajosos o suficiente para se indagarem, receberiam
a resposta de que alguns alegam conter uma alma, outros, uma estrela, mas que o
velhinho descobriu que na verdade não é nada disso. O que jaz escondido,
lacrado a chave, tranca, cadeado, fechado a ferro e fogo, é a semente de todos
os mistérios. Arcano Maior Zero. O projeto inicial do universo. O primeiro
sorriso de Deus. Um átomo. O alfinete em que cem bilhões novecentos e noventa e
oito milhões trezentos e quarenta e dois mil duzentos e vinte e três anjos
dançam polca sobre sua cabeça. Naquele baú de pirata, caixinha humana, está um
bocado de gente, de animais, plantas, seres, nomes, palavras, coisas, objetos,
memórias. Existe até amor. Sabe, aquelas quinquilharias que resumem a vida e
dão sentido à morte. Só não contém segredos. Eles são perecíveis.
Um dia como outro qualquer (ou quase isso)
Manhã de Natal. Sem árvore
enfeitada com bolas coloridas e pisca-piscas, nem presentes. Nada de Papai
Noel, renas, neve. Apenas uma garoa marota dando olá na vidraça contra o fundo
gris do céu. Meu humor não está dos melhores.
O único milagre do dia será
reunir a família. Digo reunir de uma forma abstrata. Primeiro vem a parte
materna em uma casa, depois a paterna em outra. Dependendo do ano, inverte-se a
ordem. Tudo bem, pode não haver a comunhão familiar dos sujeitos do comercial
da Doriana, mas hoje darei muitas risadas, escutarei repetidas vezes histórias antigas
e algumas inclusive novas (todas hão de se tornarem lendas futuras cantadas
pelos bardos nos salões de seus senhores embriagados pelas canecas de chifre
cheias de vinho. A pontualidade cronológica que se foda numa hora dessas!),
tomarei o já citado vinho em copos normais... No fim, agradecerei a algum deus
por tudo isso. O amor incondicional terá lugar à mesa, em cada gesto, em cada
olhar, em cada carinho e frase dita, por mais torpe ela termine sendo.
Falei que meu humor estava ruim.
Pieguice em pleno momento do nascimento de Cristo e blablabla não é bom sinal.
Talvez seja porque me cansei das mentiras. Primeiro me contam que o velhinho
barbudo vestido de vermelho não existe. Depois, vai-se a magia dos presentes,
que você descobre ser uma mera convenção vinda de séculos atrás e que o mercado
capitalista soube explorar de uma maneira colossalmente lucrativa. Daí, vem o
papo sobre Jesus na manjedoura misturado ao de festas bacantes romanas e cultos
de adoração a Mitra mais antigos do que a escrita na pedra. Logo, acaba-se tudo
e sobram os fingimentos, como os restos de comida que deixamos no prato porque
podemos, afinal tivemos chance de comprá-la enquanto milhares ou, sei lá,
milhões de pessoas morrem de fome espalhadas por esta terra desolada e repleta
de sonhos mortos. Ok, quiçá um ou outro parente de fato deixe que hoje a vida
seja tudo que a Coca-Cola promete na TV. Talvez algum deles deixe os fantasmas de
Dickens apresentarem-lhe o verdadeiro espírito natalino. Não é o meu caso.
Mesmo sem fumar, creio que
acenderia um cigarro agora. Ou um cachimbo, com folhas do Velho Tobby. Exceção
aberta, longo trago. Ficaria olhando a fumaça subir em desenhos espirais até se
misturar com a água da chuva. Uma chuva que tamborila para um Tamburini.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Uma fábula em quatro linhas
Passeavam pelos bosques, assoviando,
três pequenas cotovias, quando se depararam com uma rodovia de estrelas cujo
tráfico não andava. Uma delas reclamou: Olha que trânsito maldito! A outra
perguntou: Por que os faróis não se movem? A última só suspirou: Como são belos
os mistérios desse mundo...
Plenitude
Assim como não há melhor lugar que o lar, não existe melhor tempo que o presente. O vento passa pela janela
entreaberta trazendo o perfume da noite em seus braços e a música dela em seus
passos, beija-me a face e me acaricia os cabelos com a delicadeza e o carinho
que uma mãe teria ao ninar o filho. Vejo as ruas silenciosas sob as lâmpadas opacas
e as casas onde sonhos moram neste momento. É a primeira madrugada de uma nova
estação. Começo do verão. Logo será possível sentir o gosto estático das
tempestades na boca, admirar os desenhos dos raios e apreciar a sinfonia dos
trovões após o show de fótons da companhia dos relâmpagos. Por enquanto, no
entanto, basta esse aroma de orvalho e as reverberantes canções entoadas pelas
estrelas lá do seu leito ébano. Isto já preenche a minha vida. Plenitude.
(Junto com o infernal cricrilar
das cigarras e o zunzunzum dos pernilongos. É, nem tudo é perfeito...)
sábado, 22 de dezembro de 2012
Aquele olhar
Quando notei, já tinha
acontecido. Rápido como uma chuva de asteroides desenhando órbitas com seu giz
luminoso no quadro negro do firmamento, meu coração sucumbiu à inevitável e
curiosa sina, grande pregadora de peças e feitora de improvisos e estranhos
milagres. Serei assombrado por aquele olhar pelos restos de meus dias. Naqueles
olhos cabem o mundo, o universo, Deus e o impossível.
Elevação
A elevação às esferas etéreas
O voo da fera que espera
Alcançar as estrelas eternas
Sair do chão desta terra
Assim sobe o poeta, proscrito
Cuja alma nasceu para o céu
Com as suas asas de Ícaro
Estendidas por sobre broquel
Para sempre, para as alturas
Para a solidão que perdura
Vai o artista, fogo ascendente
Cordas de palavras puras
Escala aquela pobre criatura
Carregando sorriso contente
Crescer
Nervos à flor da pele, exposto, desnudado, desabrochado
Às dores e mazelas do toque insensível da cruel sociedade
O garoto está embaixo da cama sozinho em casa, treme, chora
Sob seu escudo de estrados e colchas e espadas de lágrimas
Sabe que a inocência e a pureza aqui no mundo têm seus
papéis
Rasgados pelas pessoas mais velhas, corrompidas, machucadas
Por que os feridos gostam de ferir quem ainda é saudável?
(Para que ele possa ser um deles, parte do bando, da
gangrena)
Isto o rapaz sabia no fundo, mas não escutava ou entendia
A besta dentro de si que naquele momento crucial nascia.
Ah, o maldito ato de crescer...
Tão distante, tão distante...
Desolado, isolado, exilado
Perdido, porém encontrado
Em meio a arquipélagos mil
De pessoas
Oh, seres de caráter vil!
Carentes de brio
Despencam como as folhas em Abril,
Desgovernadas, arruinadas, destinadas
Ao vagar sem rumo nem prumo
Pelas incertezas e inconstâncias guiadas
Tão distante, tão distante
Aberração, um Não, louco no chão
Insano ao observar
As estranhas ilhas nas entranhas
De tamanhas faltas de ser
Homens vazios afogados em rios
Deveras frios
Profundezas, sem certezas ou prestezas
Onde ter ou não ter invadem seu ser
Animal, bestial, sem igual
Uma mente
Que quem tente entendê-la
Sente que nem próximo da superfície arranha
Dona aranha, dona aranha
Tão distante, tão distante
Errante, rapaz, amante
Do desconhecido, exilado, esquecido
Voa, menino, voa, menino
Peregrino...
Tão distante, tão distante...
Requiescat in pace
Choram baixinho a noite e o meu coração
Tanta é a distância que há entre nós dois
Que soluça baixinho meu pobre violão
Até um lamento para o que virá depois
Já se findam as tremeluzentes flamas das velas
Sobre os alvos castiçais de crânios risonhos.
Chegam, carne, ossos, trevas, e lá vem elas!
Quisera eu estar somente em maus sonhos...
Chegam as três, frígidas, famintas, nebulosas...
Com abraços e carícias em seus egos ébanos
Tomo-as como amantes, abro-lhes as portas,
Escancaro meu espírito para atos incrédulos!
Solidão, Tristeza e Morte muito me amam.
Joguei pelas janelas nossos velhos retratos.
Trancados no quarto que de Inferno chamam,
Daqui para frente seremos só nós quatro!
Sambinha de Lá
O samba não é do morro
O samba não é do asfalto
É feitiço matreiro
O samba fala mais alto
É de todo brasileiro
É de todo coração
Só não tem samba
Quem não tem alma, não
Só não tem samba
Quem não tem alma, não
Morena...
Soneto Real
Herdei defuntos dos mais diversos tipos
Alguns são histórias, outros são mitos
Há um esqueleto que gosta de spleen
E até uma garota que gosta de mim
Guardo todos num quarto bem claro
Junto a velhos fósseis de caso raro
Olhe, não são dinossauros, perceba
Nas entrelinhas há caixinha surpresa
Ganhei de um velho trovador arabesco
Quando passeei pelo inferno dantesco
Lá fazia um calor de matar diabo
No retorno visitei rapidamente Deus
E olha só o que o bendito me deu:
A coroa dos loroteiros. E é de quiabo
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Desespero
Você ouve isso?
Escuta o retumbar dos trovões
E o tamborilar das quedas?
Sente as sombras se contorcendo?
O negrume pairando, horrendo?
Pois saiba que isto é o espelho
Daquilo
que tenho dentro do peito.