Tem pessoas que não possuem a
mínima noção de onde estão indo. Em que lugar adentram ao pisarem nas paragens
rubras das cavidades exangues. Não sabem o que veem quando observam a casa
pulsante habitada apenas por um velho com suas poeiras e histórias. Nem ousam
chegar mais perto, conhecer quem ali reside. Muito menos arriscam perguntar
sobre a caixa cuja fechadura projeta um feixe de luz que atravessa uma das
janelas, jogando a única luminosidade existente no território selvagem, escuro
e vazio que há lá fora, como um farol bruxuleando à beira do infinito oceano da
noite. O que tem lá dentro? Os corajosos o suficiente para se indagarem, receberiam
a resposta de que alguns alegam conter uma alma, outros, uma estrela, mas que o
velhinho descobriu que na verdade não é nada disso. O que jaz escondido,
lacrado a chave, tranca, cadeado, fechado a ferro e fogo, é a semente de todos
os mistérios. Arcano Maior Zero. O projeto inicial do universo. O primeiro
sorriso de Deus. Um átomo. O alfinete em que cem bilhões novecentos e noventa e
oito milhões trezentos e quarenta e dois mil duzentos e vinte e três anjos
dançam polca sobre sua cabeça. Naquele baú de pirata, caixinha humana, está um
bocado de gente, de animais, plantas, seres, nomes, palavras, coisas, objetos,
memórias. Existe até amor. Sabe, aquelas quinquilharias que resumem a vida e
dão sentido à morte. Só não contém segredos. Eles são perecíveis.
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