O único milagre do dia será
reunir a família. Digo reunir de uma forma abstrata. Primeiro vem a parte
materna em uma casa, depois a paterna em outra. Dependendo do ano, inverte-se a
ordem. Tudo bem, pode não haver a comunhão familiar dos sujeitos do comercial
da Doriana, mas hoje darei muitas risadas, escutarei repetidas vezes histórias antigas
e algumas inclusive novas (todas hão de se tornarem lendas futuras cantadas
pelos bardos nos salões de seus senhores embriagados pelas canecas de chifre
cheias de vinho. A pontualidade cronológica que se foda numa hora dessas!),
tomarei o já citado vinho em copos normais... No fim, agradecerei a algum deus
por tudo isso. O amor incondicional terá lugar à mesa, em cada gesto, em cada
olhar, em cada carinho e frase dita, por mais torpe ela termine sendo.
Falei que meu humor estava ruim.
Pieguice em pleno momento do nascimento de Cristo e blablabla não é bom sinal.
Talvez seja porque me cansei das mentiras. Primeiro me contam que o velhinho
barbudo vestido de vermelho não existe. Depois, vai-se a magia dos presentes,
que você descobre ser uma mera convenção vinda de séculos atrás e que o mercado
capitalista soube explorar de uma maneira colossalmente lucrativa. Daí, vem o
papo sobre Jesus na manjedoura misturado ao de festas bacantes romanas e cultos
de adoração a Mitra mais antigos do que a escrita na pedra. Logo, acaba-se tudo
e sobram os fingimentos, como os restos de comida que deixamos no prato porque
podemos, afinal tivemos chance de comprá-la enquanto milhares ou, sei lá,
milhões de pessoas morrem de fome espalhadas por esta terra desolada e repleta
de sonhos mortos. Ok, quiçá um ou outro parente de fato deixe que hoje a vida
seja tudo que a Coca-Cola promete na TV. Talvez algum deles deixe os fantasmas de
Dickens apresentarem-lhe o verdadeiro espírito natalino. Não é o meu caso.
Mesmo sem fumar, creio que
acenderia um cigarro agora. Ou um cachimbo, com folhas do Velho Tobby. Exceção
aberta, longo trago. Ficaria olhando a fumaça subir em desenhos espirais até se
misturar com a água da chuva. Uma chuva que tamborila para um Tamburini.
0 comentários:
Postar um comentário