terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Cotidiano
Acordo. O amanhecer me assusta. O
ar carregado de orvalho e possibilidades latentes mescladas com a incerteza do
que virá a partir do momento em que meus pés saírem da cama e tocarem o chão eriçam
os pelos de minha nuca. Talvez existam surpresas nas sombras. Meu coração
palpita, alucinado. Junto coragem e me levanto. Faltam exatamente vinte e
quatro horas para o terror e a tensão recomeçarem. Até lá, resta-me a rotina.
Comunicação
Eu me escondo atrás de palavras e
mais palavras. São minha espada e meu escudo. Às vezes, espelho. Como assim, às
vezes espelho? Nem sempre elas refletem o que realmente quero dizer ou o que penso.
Simplesmente criam vida própria. Saem pulando e brincado do útero da gramática
direto para a tinta e o papel ou para a língua, e destes correm para o mundo,
trazendo suas alegrias e atrocidades na bagagem. Fazem bens e maus que nunca
desejei causar. Seja esmagar borboletas que resultam em terremotos, seja roubar
o sorriso puro de uma criança ou uma lágrima de qualquer um. Coleciono lágrimas,
tenho de todos os sabores e tipos.
Eu falo mais com o silêncio e com
os olhos. Quem quiser me conhecer mesmo, que os encare. E aceite algumas
palavras de vez em quando.
A Bendita Maldição de Pitágoras
Apesar de odiar matemática,
inevitavelmente, pela ironia que rege o mundo, sou o resultado de somatórias,
subtrações, divisões e multiplicações. Devo aceitar isso, e você também, por
mais que odeie matemática como eu. Tem certas coisas na vida que ao negarmos acabam
em zero.
O Tolo
Um dos pés atravessa a porta. Por
um minuto ele pára. Hesita. A estrada se estende rumo ao desconhecido horizonte
à sua frente, até perder-se de vista. Sempre quisera fazer aquilo. Respira
fundo e avança. Com passos repletos de temor e ousadia, segue o viajante,
peregrino, vagante, aventureiro de alma errante, despreparado ao que encontrará
no final do caminho. Só uma coisa sente em seu coração: que a paz, este desejo supremo
de seu ser, está em algum lugar, lá e de volta outra vez.
Mal sabe que ela jaz dentro dele,
dormente. Precisa apenas ser notada e despertada. Tal qual um dragão.
JK Rowling estava errada.
Colibridéia
Tenho certeza que uma ideia
passou por aqui. Bateu asas, soltou um punhado de titica, resmungou algo incompreensível,
provavelmente insano, e então partiu. Devia ser genial, pelo visto. Adubou
minha mente bem o bastante para escrever que ela passou por aqui.
A placa e a caixa
Deveria colocar uma placa em meu
peito com os dizeres: Cuidado! Terreno perigoso!
Tem pessoas que não possuem a
mínima noção de onde estão indo. Em que lugar adentram ao pisarem nas paragens
rubras das cavidades exangues. Não sabem o que veem quando observam a casa
pulsante habitada apenas por um velho com suas poeiras e histórias. Nem ousam
chegar mais perto, conhecer quem ali reside. Muito menos arriscam perguntar
sobre a caixa cuja fechadura projeta um feixe de luz que atravessa uma das
janelas, jogando a única luminosidade existente no território selvagem, escuro
e vazio que há lá fora, como um farol bruxuleando à beira do infinito oceano da
noite. O que tem lá dentro? Os corajosos o suficiente para se indagarem, receberiam
a resposta de que alguns alegam conter uma alma, outros, uma estrela, mas que o
velhinho descobriu que na verdade não é nada disso. O que jaz escondido,
lacrado a chave, tranca, cadeado, fechado a ferro e fogo, é a semente de todos
os mistérios. Arcano Maior Zero. O projeto inicial do universo. O primeiro
sorriso de Deus. Um átomo. O alfinete em que cem bilhões novecentos e noventa e
oito milhões trezentos e quarenta e dois mil duzentos e vinte e três anjos
dançam polca sobre sua cabeça. Naquele baú de pirata, caixinha humana, está um
bocado de gente, de animais, plantas, seres, nomes, palavras, coisas, objetos,
memórias. Existe até amor. Sabe, aquelas quinquilharias que resumem a vida e
dão sentido à morte. Só não contém segredos. Eles são perecíveis.
Um dia como outro qualquer (ou quase isso)
Manhã de Natal. Sem árvore
enfeitada com bolas coloridas e pisca-piscas, nem presentes. Nada de Papai
Noel, renas, neve. Apenas uma garoa marota dando olá na vidraça contra o fundo
gris do céu. Meu humor não está dos melhores.
O único milagre do dia será
reunir a família. Digo reunir de uma forma abstrata. Primeiro vem a parte
materna em uma casa, depois a paterna em outra. Dependendo do ano, inverte-se a
ordem. Tudo bem, pode não haver a comunhão familiar dos sujeitos do comercial
da Doriana, mas hoje darei muitas risadas, escutarei repetidas vezes histórias antigas
e algumas inclusive novas (todas hão de se tornarem lendas futuras cantadas
pelos bardos nos salões de seus senhores embriagados pelas canecas de chifre
cheias de vinho. A pontualidade cronológica que se foda numa hora dessas!),
tomarei o já citado vinho em copos normais... No fim, agradecerei a algum deus
por tudo isso. O amor incondicional terá lugar à mesa, em cada gesto, em cada
olhar, em cada carinho e frase dita, por mais torpe ela termine sendo.
Falei que meu humor estava ruim.
Pieguice em pleno momento do nascimento de Cristo e blablabla não é bom sinal.
Talvez seja porque me cansei das mentiras. Primeiro me contam que o velhinho
barbudo vestido de vermelho não existe. Depois, vai-se a magia dos presentes,
que você descobre ser uma mera convenção vinda de séculos atrás e que o mercado
capitalista soube explorar de uma maneira colossalmente lucrativa. Daí, vem o
papo sobre Jesus na manjedoura misturado ao de festas bacantes romanas e cultos
de adoração a Mitra mais antigos do que a escrita na pedra. Logo, acaba-se tudo
e sobram os fingimentos, como os restos de comida que deixamos no prato porque
podemos, afinal tivemos chance de comprá-la enquanto milhares ou, sei lá,
milhões de pessoas morrem de fome espalhadas por esta terra desolada e repleta
de sonhos mortos. Ok, quiçá um ou outro parente de fato deixe que hoje a vida
seja tudo que a Coca-Cola promete na TV. Talvez algum deles deixe os fantasmas de
Dickens apresentarem-lhe o verdadeiro espírito natalino. Não é o meu caso.
Mesmo sem fumar, creio que
acenderia um cigarro agora. Ou um cachimbo, com folhas do Velho Tobby. Exceção
aberta, longo trago. Ficaria olhando a fumaça subir em desenhos espirais até se
misturar com a água da chuva. Uma chuva que tamborila para um Tamburini.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Uma fábula em quatro linhas
Passeavam pelos bosques, assoviando,
três pequenas cotovias, quando se depararam com uma rodovia de estrelas cujo
tráfico não andava. Uma delas reclamou: Olha que trânsito maldito! A outra
perguntou: Por que os faróis não se movem? A última só suspirou: Como são belos
os mistérios desse mundo...
Plenitude
Assim como não há melhor lugar que o lar, não existe melhor tempo que o presente. O vento passa pela janela
entreaberta trazendo o perfume da noite em seus braços e a música dela em seus
passos, beija-me a face e me acaricia os cabelos com a delicadeza e o carinho
que uma mãe teria ao ninar o filho. Vejo as ruas silenciosas sob as lâmpadas opacas
e as casas onde sonhos moram neste momento. É a primeira madrugada de uma nova
estação. Começo do verão. Logo será possível sentir o gosto estático das
tempestades na boca, admirar os desenhos dos raios e apreciar a sinfonia dos
trovões após o show de fótons da companhia dos relâmpagos. Por enquanto, no
entanto, basta esse aroma de orvalho e as reverberantes canções entoadas pelas
estrelas lá do seu leito ébano. Isto já preenche a minha vida. Plenitude.
(Junto com o infernal cricrilar
das cigarras e o zunzunzum dos pernilongos. É, nem tudo é perfeito...)
sábado, 22 de dezembro de 2012
Aquele olhar
Quando notei, já tinha
acontecido. Rápido como uma chuva de asteroides desenhando órbitas com seu giz
luminoso no quadro negro do firmamento, meu coração sucumbiu à inevitável e
curiosa sina, grande pregadora de peças e feitora de improvisos e estranhos
milagres. Serei assombrado por aquele olhar pelos restos de meus dias. Naqueles
olhos cabem o mundo, o universo, Deus e o impossível.
Elevação
A elevação às esferas etéreas
O voo da fera que espera
Alcançar as estrelas eternas
Sair do chão desta terra
Assim sobe o poeta, proscrito
Cuja alma nasceu para o céu
Com as suas asas de Ícaro
Estendidas por sobre broquel
Para sempre, para as alturas
Para a solidão que perdura
Vai o artista, fogo ascendente
Cordas de palavras puras
Escala aquela pobre criatura
Carregando sorriso contente
Crescer
Nervos à flor da pele, exposto, desnudado, desabrochado
Às dores e mazelas do toque insensível da cruel sociedade
O garoto está embaixo da cama sozinho em casa, treme, chora
Sob seu escudo de estrados e colchas e espadas de lágrimas
Sabe que a inocência e a pureza aqui no mundo têm seus
papéis
Rasgados pelas pessoas mais velhas, corrompidas, machucadas
Por que os feridos gostam de ferir quem ainda é saudável?
(Para que ele possa ser um deles, parte do bando, da
gangrena)
Isto o rapaz sabia no fundo, mas não escutava ou entendia
A besta dentro de si que naquele momento crucial nascia.
Ah, o maldito ato de crescer...
Tão distante, tão distante...
Desolado, isolado, exilado
Perdido, porém encontrado
Em meio a arquipélagos mil
De pessoas
Oh, seres de caráter vil!
Carentes de brio
Despencam como as folhas em Abril,
Desgovernadas, arruinadas, destinadas
Ao vagar sem rumo nem prumo
Pelas incertezas e inconstâncias guiadas
Tão distante, tão distante
Aberração, um Não, louco no chão
Insano ao observar
As estranhas ilhas nas entranhas
De tamanhas faltas de ser
Homens vazios afogados em rios
Deveras frios
Profundezas, sem certezas ou prestezas
Onde ter ou não ter invadem seu ser
Animal, bestial, sem igual
Uma mente
Que quem tente entendê-la
Sente que nem próximo da superfície arranha
Dona aranha, dona aranha
Tão distante, tão distante
Errante, rapaz, amante
Do desconhecido, exilado, esquecido
Voa, menino, voa, menino
Peregrino...
Tão distante, tão distante...
Requiescat in pace
Choram baixinho a noite e o meu coração
Tanta é a distância que há entre nós dois
Que soluça baixinho meu pobre violão
Até um lamento para o que virá depois
Já se findam as tremeluzentes flamas das velas
Sobre os alvos castiçais de crânios risonhos.
Chegam, carne, ossos, trevas, e lá vem elas!
Quisera eu estar somente em maus sonhos...
Chegam as três, frígidas, famintas, nebulosas...
Com abraços e carícias em seus egos ébanos
Tomo-as como amantes, abro-lhes as portas,
Escancaro meu espírito para atos incrédulos!
Solidão, Tristeza e Morte muito me amam.
Joguei pelas janelas nossos velhos retratos.
Trancados no quarto que de Inferno chamam,
Daqui para frente seremos só nós quatro!
Sambinha de Lá
O samba não é do morro
O samba não é do asfalto
É feitiço matreiro
O samba fala mais alto
É de todo brasileiro
É de todo coração
Só não tem samba
Quem não tem alma, não
Só não tem samba
Quem não tem alma, não
Morena...
Soneto Real
Herdei defuntos dos mais diversos tipos
Alguns são histórias, outros são mitos
Há um esqueleto que gosta de spleen
E até uma garota que gosta de mim
Guardo todos num quarto bem claro
Junto a velhos fósseis de caso raro
Olhe, não são dinossauros, perceba
Nas entrelinhas há caixinha surpresa
Ganhei de um velho trovador arabesco
Quando passeei pelo inferno dantesco
Lá fazia um calor de matar diabo
No retorno visitei rapidamente Deus
E olha só o que o bendito me deu:
A coroa dos loroteiros. E é de quiabo
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Desespero
Você ouve isso?
Escuta o retumbar dos trovões
E o tamborilar das quedas?
Sente as sombras se contorcendo?
O negrume pairando, horrendo?
Pois saiba que isto é o espelho
Daquilo
que tenho dentro do peito.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Mar do Universo
Para uma mulher inalcançável
Não basta um amor normal
Ela nunca conhecerá teus abraços
Nem o calor de teus lábios
Nem as profundezas de teu coração
Só saberá de ti quando a olhares
Só te conhecerá pelos teus gestos
Os mais simples, e os mais tolos
Rirá de tuas piadas e de tuas histórias
Dividirá as dela, chorará contigo
Quando a noite chegar e lhes envolver
Mas, mesmo assim, não te amará
Não da maneira como tu a amas
Não que seja impossível alcançá-la
É apenas improvável: ela está em outro
Outro amor, outro plano, outra vida
Para uma mulher dessas, longínqua
Para qual você existe somente nas sombras
Sempre a colocar a mão sobre as dela
Sempre a tocar-lhe com leveza o rosto
Carregado pelo vento que canta ao soprar
Só existe um tipo de amor
Fora do espaço, fora do tempo
Um amor sem amarras, sem condições
Infinito e eterno em seu amar
Mar do universo
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
(Di)Fuso Horário
Ser insone tem suas vantagens.
Por exemplo, consigo sentir milhões de sonhos pairando no ar, remexendo
enquanto flutuam noite afora até as raízes coletivas do universo. Alguns são
leves, belos, coloridos, ao passo que outros são pedregosos, sofridos e assustadores.
Basta me mexer e esbarro em um sonho ou pesadelo alheio. Gosto de fazer uma
brincadeira: escolho uma dessas histórias errantes, seguro ela em minhas mãos e
escuto o que está dizendo. Como um punhado de areia onírica, cada grão
escorrega por entre meus dedos cantando canções de terras longínquas, absurdos
e delírios, verdades e revelações. Sentado em volta da fogueira, atencioso para
o xamã cuja sombra se ergue gigantesca no vale, contrastante com a alva lua que
navega em seu oceano de estrelas, eu me perco pelos labirínticos caminhos da
narrativa que preenche o mundo naquele instante. Crio asas, sou Ícaro, mas não
caio quando voo perto do sol. Ao contrário. Comungo com ele, envolvendo-me em
chamas, virando fênix e cinzas. Delas renasço, desperto. Olhos abertos, percebo
os sulcos no rosto do velho, e neles há palavras escritas, como se fossem
linhas em um livro. Ele para de contar o que estava contando, ciente de que
agora eu havia enfim notado que cada ruga e marca em seu corpo judiado pelo
tempo falavam por si mesmas. Eram tantas histórias, tantas vozes destoantes e
simultaneamente em uníssima concordância, todas boiando como bolhas de sabão em
direção aos céus, elevadas pela invisível força da imaginação, tais quais os
sonhos que durante a noite capturo e ouço. Guardo-as em meu coração. O cérebro
se esquece de certas coisas, o coração sempre lembra. Acordo dos devaneios ao
cair do último grão morfético. Agora vou dormir.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Anjas
Filha das supremas alturas
Uma bela presença obscura
Anja de asas negras e luas
Eclipsadas, veio a mim, nua
Uma bela presença obscura
Anja de asas negras e luas
Eclipsadas, veio a mim, nua
Irradiava trevais mais pura
Tal memória ainda perdura
Desenhada na mente, na rua
No palco onde a vida atua
Pelas calçadas e alçadas
As rubras pernas esticadas
Revelam segredos arcanos
As anjas jazem cá deitadas
Lindas pérolas espalhadas
Por mil e um confins humanos
Tal memória ainda perdura
Desenhada na mente, na rua
No palco onde a vida atua
Pelas calçadas e alçadas
As rubras pernas esticadas
Revelam segredos arcanos
As anjas jazem cá deitadas
Lindas pérolas espalhadas
Por mil e um confins humanos
Novembro
Novembro é velho, desgastado pelo tempo,
Carcomido por memórias e histórias.
Sua pele tem a textura e o perfume de livros
Guardados há tantos milênios que até as traças
Já o esqueceram.
Carcomido por memórias e histórias.
Sua pele tem a textura e o perfume de livros
Guardados há tantos milênios que até as traças
Já o esqueceram.
Ele se veste de neblina, esconde sua nudez lasciva
Nas brumas e no mistério.
Caminha, quieto e só, erguendo estrelas à sua frente
Enquanto as cola com saliva no quadro da noite.
Novembro carrega palavras nos bolsos esfarrapados,
Arrasta penas nos calcanhares herméticos,
Tem em seu peito o coração das trevas e das criaturas que lá habitam.
Ninguém vê seu rosto, ninguém realmente o conhece.
Segue, angelical e demoníaco, sacro e profano,
Cavalgando tempestades na companhia de gigantes e antigos deuses.
Cai na chuva, lamenta no trovão e vive no raio.
Novembro é mês e ser.
É um pouco de mim e um pouco de você.
Nas brumas e no mistério.
Caminha, quieto e só, erguendo estrelas à sua frente
Enquanto as cola com saliva no quadro da noite.
Novembro carrega palavras nos bolsos esfarrapados,
Arrasta penas nos calcanhares herméticos,
Tem em seu peito o coração das trevas e das criaturas que lá habitam.
Ninguém vê seu rosto, ninguém realmente o conhece.
Segue, angelical e demoníaco, sacro e profano,
Cavalgando tempestades na companhia de gigantes e antigos deuses.
Cai na chuva, lamenta no trovão e vive no raio.
Novembro é mês e ser.
É um pouco de mim e um pouco de você.
domingo, 21 de outubro de 2012
Água e Areia
Dias de viver, dias de sobreviver
Dias de perder, dias de ganhar
Dias de morrer e de renascer
Dias de escrever e de cantar
Dias de comer, dias de ser
Dias de não ser, dias de amar
Dias de esquecer e de sofrer
Dias de sorrir e de se alegrar
Dias e dias, de relembrar
Dias de sonhar e fantasiar
Trezentos e sessenta e tantos
Dias para poder se contar
Passam as estações, passam areias
Passam águas e nelas, sereias
Carregando tempo nas mãos
Afogadas na cronologia estão
Encantadas no outono
Fadadas ao inverno
Noites de verão
Primavera e solidão
Dias e mais dias...
Consolação, só amanhã.
Um cadinho de redenção...
Passa água, passa tempo, passa...
Passa areia, passatempo, passa...
Passa arado, passado, passa...
Passa paz, passarinho, sobrepassa...
Sorte que inventaram o amanhã para ganharmos um novo dia.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Petrificação de um suicida
Sob a pesada chuva de um mês qualquer
A petrificação de um suicida chanceler
Jogou silhuetas arabescas na calçada
Sempre chega sua vez de ser a chamada
Crianças jornaleiras vendiam o ultimato
Dos últimos dias desse mundo assaz chato
Divagações, divagações, nenhuma brincadeira
Só delirium tremens
de sábados a sextas-feiras
Letras garrafais anunciavam “Extra! Extra!”
“Cientistas provam que a alma não presta!”
“Estaríamos melhores sem ela, é deveras!”
“Desapegados de emoções, vis esparrelas!”
Sob a pesada chuva de um mês qualquer
A petrificação de uma suicida mulher
Jogou silhuetas arabescas na calçada
Sempre chega sua vez de ser a chamada
Auto-Retrato
Hoje escrevo, escrevo porque não mais aguento!
Gritam com roucas vozes rubras os corvos cegos da Fúria
Entoando canções de angústias e malogradas farsas nas
câmaras
De ventrículos, habitadas por ódios, vazios feridos e
cicatrizes ocas,
Antigamente um lar da perdição humana (extinta chama,
extinta chama. Clama!).
Pistões agora injetam o veneno amargo da cólera na árvore
das artérias.
E vão nadando, e vão pulsando... E vão valsando, e
trepidando...
Bombas nucleares, bilhões de sóis soturnos em miniaturas cinzentas
que
Acendem duas supernovas em minhas magras órbitas oculares.
Prosas.
Explodindo, destruindo, a tudo consumindo, zombeteiras,
rindo
Rios de pálidos glóbulos vagando até os confins
antimateriais do cosmos.
Tem baba de intensa e suprema raiva escorrendo nessas
entrelinhas,
Cuidado para não se manchar com versos inundados de sangue.
Vire as páginas com cautela! Não vá querer ver meu furor em
rinhas
Se abatendo sobre sua carcaça tal qual ave de rapina em caça.
Jugulares abertas com afagos de garras, portas escancaradas,
Prontas para receberem a eucaristia profana de todas as iras,
Guardadas outrora em caixa de Pandora, setes chaves de
tranca.
Quero ruínas. Esmagar montanhas e planetas com o polegar.
Quero destruição e caos e que a Morte seja coroada Rainha da
Vida.
Urro pelos corredores da loucura desejando derrubar os
dominós,
Chutar o quebra-cabeça das divindades, quebrar seus pescoços,
Arrancar os olhares passivos de seus escravos e morder seus
ossos.
Não se metam comigo. Não tentem, nem ousem. Não joguem com a
Sorte.
Até ela, senhora da Roda, sempre vencedora e abatedora dos
fortes,
Não é páreo para um filho das sombras e do inverno do Norte.
[Este é um poema das antigas. Não mudei muito, não...]
Pensamentos
A neve tem uma graça que apenas ela possui em sua queda.
A folha tem uma beleza que só ela detém quando dança nos
braços de seu amado vento.
Há na tempestade o mais lindo e mais mortal show de luzes.
O sol e a lua possuem um amor secreto, onde um corre atrás
do outro sem saber ou perceber que se perseguem num eterno pega-pega pelos
campos celestiais.
Contemplação
Às vezes, ela é a melhor forma de aprendizado. É o
conhecimento que vem do silêncio de todas as palavras, a experiência de admirar
o mistério e comungar com ele.
Loki
Basta! Já estou farto desta farsa!
Esgarçaram-se os fios desta trama.
Tênues linhas de sigiloso drama
Que por alhures e além se esparsa.
Balancem dançarinas, enfeitando praças!
Marionetes sufocadas pelo desenlace.
E que mil gotas prateadas rolem pelas faces
Esparzindo males de destruição e desgraças!
Ó, mares de títeres e bonecos desmembrados!
Ó, marés de sorrisos irreverentemente rasgados!
Quantos oceanos convulsivos e confusões no ato!
Há um deus zombeteiro nos observando dos degraus,
E alguns dizem ser ele a mais pura força do caos:
Um rosto incógnito que permanece em anonimato!
Mundo Thelemático
Um mundo thelemático, onde tudo é da lei
Tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno
Lugar recheado de fumaça e espelhos
Por que nascemos, vivemos e morremos em caixas?
Por que preferimos o confinamento nestas coisas
Frágeis
Quando há cem confins siderais esperando lá no alto?
Quando há sem fins de espaços aqui do nosso lado?
Deixamos que risquem nossas cabeças de fósforo
Pois somos o combustível que alimenta a Máquina
Somos o flagelo que consome a carne divina
Somos o verme que abre caminho pelas órbitas vazias de Deus
O preço da liberdade
[Inspirado pelo poema da Rachel. Não é uma resposta ao mesmo, e sim uma fábula envolvendo o mítico grifo, e o que ele me ensinou quando do nosso encontro]:
O grifo machucado, lá das alturas alvejado,
Cai num tango de morte e vida, derrubado
Pela mira certeira de um arqueiro mortal
Invejoso de seu dom das asas, liberdade tal
Que só o grifo em seu voo há de ter apreciado.
Mas o animacida, ao aproximar-se da fera abatida,
Vislumbra em seus globos vítreos, refletidas,
Sua própria estrada cega e carência de amor
E agonia, mesmo tendo o grifo asas para ser ator
Da maior encenação de alvedrio já conhecida.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Segundo Trailer: "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada"
Já estou fazendo contagem regressiva!!!
Quem quiser ver os outros quatro finais (alternativos) para o trailer, acesse: <http://wwws.br.warnerbros.com/thehobbitpart1/index.html>.
Fonte: Omelete. <http://omelete.uol.com.br/>
Gravidade (ou como Newton ferrou a minha vida)
A gravidade puxa a corda em meu peito,
E ela cai, pedra de sangue e fogo,
Feito uma estrela rubra num oceano ébano.
Despenca, corpo morto, sem ter mais o ânimo que o movia.
Tange, retesa, vibra, pulsa palpitante, cada vez mais lento.
Seu brilho já é apenas uma fotografia de eras passadas.
Seu gosto de morangos mofados encherá a boca de vermes.
A fragrância que agora lhe cerca é de doença, pestilência,
Nada parecido com o doce aroma de rosas
Que o embalava em noites de verão onde
Pés e mãos se encontravam num amar sem fim.
O rigoroso inverno da alma chegou,
E nada mais além do nada realmente importa.
Waki-yan-techantewyn
Nascida do ventre da tormenta, filha do trovão
Veio dançante, rebentando o vento, cavalgando o raio
Vestida somente de diamantes vítreos coloridos
Com seu sorriso perolado e água nas mãos
Veio, seminua, seios de elétrons empinados
Rebolando seus quadris de marinheira
Ancas bem definidas pelo fogo trabalhadas
Descendo em tranças seus cabelos de lua cheia
Ah, mulher de coração indomável, energia
Cujos olhos relampejantes a todos conquistam
Venha me ter como seu único homem
Que tempestade e granizo de nós se formem!
Do pó ao pó
Do pó ao pó, arrasto meus pés nos pálidos grãos
Que recobrem de ponta a ponta a praia do firmamento
Por entre meus dedos, escorregam biografias e mundos
Um tobogã caleidoscopicamente formado por matizes
Desconhecidas aos olhos dos seres que estão vivos
Ainda
Cinzas cobrem o mar que ao infinito e além segue
Imensidão que cabe na palma de minha mão
Por que tanta tristeza? Por que tanta felicidade?
Tudo que há neste oceano não tem menos do que
Cem olhos e trocentas pernas e inumeráveis braços
Nem todos os seus olhares juntos poderiam enumerar
A brisa que vem do oeste lambe minha face
Velha amante recheada de volúpia e pecado
Antes comer deste fruto do que ser ignorado
Mais uma reles gema perdida em meio às
Cordas e engrenagens que tudo movimentam
Tic-toc, tic-tac, faz meu coração, sincronia perfeita
Com o coro de almas que comigo jazem vagando
Pelas areias do globo de vidro raiado por Zeus
Tal bola de fulgurito novamente agitada
Deus ri
Morte ri
Tudo acaba
Do pó ao pó
Monociclo, monovida
Os monociclos de uma monovida
Nas suas repetições de roda viva
Vão girando, girando, cirandando
Em cabeças nebulosas espirais
Como universos dançando em volta
Dos eus que não retornam mais
Ciclopes piratas com olhos tapados
Que perspectivas sobrariam para os coitados
Cegueira, apenas
Enxergar não com a visão, nem com a mente
Mas com o coração somente
Quebra os grilhões, canário que canta!
Espanta a gaiola com suas melodias de liberdade!
Aquele que fala de sonhos (ou Oko-jumu, segundo os pigmeus das ilhas Cayman)
- - Ele
está doente.
- - Doente
como?
- - É
um sonhador.
- - E desde quando isso é doença?
- - Desde que morféticos existem.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
O menino peregrino
Ando, caminho, corro...
Entre os limites da razão.
Com idéias ocorre a transformação
Do ordinário garoto em peregrino.
Cinzento vai, através do deserto
Que não é bem um deserto...
Imaginação é o nome da terra
Onde mito e realidade se confundem.
Vagando, vagante, vagabundo...
Basta um mísero passo:
Saio dos domínios da sanidade
E adentro os reinos da loucura.
O louco, veja bem, não difere
Do poeta e do amante.
Um só enxerga demônios,
O outro observa as estrelas...
O terceiro, ah, o pobre tolo
Apaixonado vê a beleza oculta
Em cada flor, em cada música,
Em cada demônio, em cada estrela...
Três é um número mágico
Triplamente amaldiçoado
No mundo real, lar de sonhos mortos,
Lugar de menino jamais peregrino.
Sabe...
Se conseguisse pôr
Em palavras o meu amor
Construiria uma escadaria
Ligando o céu ao que seria
O meu paraíso.
No meu paraíso
Não haveria
Dia do Juízo
Apenas canção
O tom de um violão
E amor sem fim.
Haveria, sem
Um belo jardim
Repleto de flores
E uma mulher flor
Perfumando minha vida
Em forma de amor.
Em palavras o meu amor
Construiria uma escadaria
Ligando o céu ao que seria
O meu paraíso.
No meu paraíso
Não haveria
Dia do Juízo
Apenas canção
O tom de um violão
E amor sem fim.
Haveria, sem
Um belo jardim
Repleto de flores
E uma mulher flor
Perfumando minha vida
Em forma de amor.
Haikai 2342
Quem és tu que vens a mim encoberta de beleza e mistério?
Quem és tu que chegas ao findar do rigoroso inverno?
Não sabendo teu nome, posso chamar-te Primavera.
Perfeita Simetria
Se você soubesse, o que seria?
Algo mudaria? Teria magia?
Com seu doce perfume de rosa
Continuaria você amorosa?
Certo como a noite e o dia
Meu amor por ti prosseguiria
Pois acho que o sorriso seu
Roubou alva lua lá do céu
Junto, foi-se meu coração
Queimar com estrelas na paixão
Mas e quanto a você, desistiria?
No anel de fogo do amor cairia?
Responda-me com seu belo olhar
Que me faz sorrir e arranca o ar
Que mão ou imortal ousaria
Traçar sua perfeita simetria?
Peço perdão por este poema
Improvisado, simples centelha
Do que eu sinto por você
Minha querida amiga, meu alvorecer.
Algo mudaria? Teria magia?
Com seu doce perfume de rosa
Continuaria você amorosa?
Certo como a noite e o dia
Meu amor por ti prosseguiria
Pois acho que o sorriso seu
Roubou alva lua lá do céu
Junto, foi-se meu coração
Queimar com estrelas na paixão
Mas e quanto a você, desistiria?
No anel de fogo do amor cairia?
Responda-me com seu belo olhar
Que me faz sorrir e arranca o ar
Que mão ou imortal ousaria
Traçar sua perfeita simetria?
Peço perdão por este poema
Improvisado, simples centelha
Do que eu sinto por você
Minha querida amiga, meu alvorecer.
Epitáfios
[Perdi minha última bisavó há pouco tempo... Este é um poema feito de luto, pranto e muita saudade]
Pai? Mãe?
Me dá um copo d’água?
Eu te amo...
Sopram palavras em redemoinhos pela janela entreaberta
Trazendo os últimos versos para aqueles ouvidos cansados
Tolhidos pela solidão, quietos na cama, esperando a ruína...
Um clarão nas trevas da torre prenuncia o brado dos céus
Enquanto poemas de memórias e saudades fazem sua dança
Figuras misteriosas de folhas e pó se abraçando no
vendaval...
A umidade beija com carinho especial a testa dos moribundos
A natureza respira e prende o fôlego, tudo por um instante
pára
Imagens congeladas, presas por tachinhas ao tecido do
tempo...
Movimento
Os raios vêm como lâminas agudas deixando cicatrizes na
noite
Buscam seu destino no mesmo local do nosso eterno descanso
Os primeiros lamentos dos anjos caem junto com o telhado
fendido...
Abalam-se as estruturas, a tempestade se assoma e você se
levanta
Nos corredores da loucura corre, se debate contra as paredes
e uiva
Sem ver o fim, uiva. Perdido nas trevas, uiva. Usa camisa de
força...
Aqueles que se foram estão em lugar melhor, mas os que aqui
ficam
Ficam com a chuva nos olhos da terra e a chuva na terra dos
olhos...
Ficam ensandecidos pela perda, endoidados pela mudança
repentina,
Pelas rupturas e guinadas abruptas naturais da tempestade...
Pelas figuras de folhas e pó que pelos vendavais festejam...
Pelos epitáfios que reverberam nos salões de seus peitos:
Não existia calmaria antes da tormenta, por que haveria de haver
agora?
A paz é mérito e pertence aos poucos que fizeram o que
precisava ser feito.
A trilha das lágrimas. Caminhe na trilha das lágrimas. Uiva.
Uiva. Morra.
Renasça.
Mãe? Pai?
Me dá um copo d’água?
Eu te amo...
Augusto
Talvez precisemos de um Augusto dos Demônios
Para escarrar em nossos rostos de falsos santos
Apedrejando, apedrejando nossos dorsos, acalantos
De uma mão que retira nossos mantos de lacônios
Dos Anjos foram muito fracos os frios cânticos
De mais penumbra e ácido tadúkico careceram
Carregadas penas que luzes apenas conheceram
Profundezas rasas mal comparadas ao Atlântico
Suas colunas de rimas em dominós organizadas
Chafurdaram entre nuvens – mas que atividade infiel!
E aos tropeços, aos tombos, foram diabolizadas
Talvez seja necessário nos afastarmos do céu
As estradas infernais são por nós pavimentadas
Augusto dos Demônios merecia é um troféu!
Mnemosine
Olho para o passado, contemplo por entre nuvens lembranças
Adentro a mansão das memórias passando pelos portões retorcidos
de tanto serem usados
Espio pelas janelas pintadas de pó, mas só vejo sombras e ouço
sussurros
Quando crio coragem o suficiente, meus dedos percorrem o
ferro da chave
Sinto o frio familiar e as ranhuras do tempo ao pegá-la
Giro a maçaneta, preparado para receber uma lufada de mofo e
teias de aranha na cara
Nada. Apenas o pesar do silencio cortado pelos meus passos
ecoando pelos corredores vazios
Tudo está como estava na última vez que vim, talvez até mais
arrumado do que me recordo
Cenas de eras se desdobram nos quadros das paredes, com seus
protagonistas me fitando enquanto caminho
Sei que por trás das portas há sonhos e fatos se misturando
numa orgia cronológica
Por escadas até a Torre eu sigo. Minha mente se estica como
manteiga sobre o pão conforme subo
(Vou chegar perante o quarto e...)
Paro perante o portal mais alto, enfeitado por dourados
entalhes, um nome e um símbolo
Respiro profundamente, me preparando como nadador antes de mergulhar
no precipício
É o quarto especial e ela está lá dentro. Sempre esteve.
Entro em paz, indo para um lugar onde não existem mais
palavras.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Noite, me abraça.
São
poucos os que conhecem realmente bem a noite, fazem parte dela, íntimos das
trevas como amantes ou filhos de seu útero érebo. Corujas e morcegos sabem do que
estou falando. Sabem como é o gosto do orvalho na boca, conhecem o som dos
sonhos, a aspereza das estrelas e a suavidade do luar, e estão familiarizados
com o perfume da esperança e o fedor do medo pairando no ar cheio de possibilidades
latentes.
Você pode ser caçador
e caça, visível e invisível, pode até ser alguém que cavalga o vento e a própria
escuridão, ou ser alguém abatido por eles antes de sequer conseguir gritar. É a
hora das fantasias e a hora das verdades.
Segredo que
lhe confesso, só as corujas, os morcegos e as pessoas alimentadas pelas tetas
da via láctea ficam de fato admirados quando o sol lança seu primeiro raiar
sobre as terras maculando toda a beleza negra melancolicamente feliz da pérola
noturna, e apenas eles detêm o mistério da sobrevivência das sombras projetadas
pela luz.
Noite,
me abraça.
domingo, 22 de julho de 2012
Corisca
Corisca, te belisca, lá fora chuvisca
Arisca, pisca que te assopro o cisco,
Te rabisco um visco, corro o risco
De virar lacaio do teu amor
Mima, me rima, entra no clima,
Com estima pra cima, vê se te hasteia
Anseia na veia lua, a vida chateia
Faltam janelas pra ti voar, condor
Repentino, o destino segue o desatino
Matutino e vespertino gira-gira
Dá e tira, aspira, verdade ou mentira,
Serve aos caprichos de alguém
Mas quem?
Abraços e laços, nós sem embaraços,
Somos pedaços de espaços no céu
O véu jaz ao léu, com corpos de mel,
Há brincadeiras e atos de fé
Segredos do enredo, lá no rochedo
Bem cedo o vinhedo vê acontecer
O não ser, o não ter, e até o florescer
De rouxinóis naquele só pé
Vento, me tento a deitar ao relento
Atento ao desalento de sua canção
A oração está na mão da contradição
Por que unir se é pra ficar separado?
Deus estará alguma vez errado?
sábado, 14 de julho de 2012
Desabafo ou ponderações egoístas
Não sei o que acontece comigo. Vivo da maneira que eu quero, com praticamente
nenhuma rotina, dormindo quando me dá sono, comendo quando me dá fome,
estudando coisas que gosto, lendo e escrevendo constantemente. Tenho a garota
mais incrível do mundo ao meu lado, nos amamos mutuamente e muito, como
naqueles filmes em que o casal passa por algumas crises e continua junto no
final, pois tudo não passou de desafios a serem superados para fortalecer o
laço e o sentimento e blablabla. Vocês já sabem a história, vem sendo
reencenada desde que os primeiros apaixonados descobriram o romance. Tenho uma
família normal, cheia de qualidades e defeitos, mas não escolheria outra se
fosse me dada a chance. Estou bem na que nasci e nasceria de novo nela se
pudesse (isso soa mais estranho quando dito em voz alta, garanto). Tenho amigos
que considero irmãos e irmãs, extraordinários cada um de seu jeito particular, e
todos seguem comigo por partes desta estrada curva chamada de vida. Nos
encontramos cá e acolá, alguns se despedem e outros sempre retornam. Assim
vamos rumando para o incerto futuro, confiantes de que em algum momento o bar
se encherá novamente com as nossas vozes ébrias e risadas ressoantes, ou com
nossos choros e confissões, alegrias e tristezas ditas e não ditas. Mesmo que
os amigos e amigas tenham mais linhas do que minha namorada e minha família
neste texto, não estou colocando-os acima de ninguém, veja bem. São todos
igualmente importantes para mim, e acredito que seria muito doloroso perder
qualquer um deles.
Então,
o que há de errado comigo? Me sinto um ingrato reclamão, alguém que não valoriza o
quanto deve de fato valorizar o que tem e quem é, e por isso acabo me tornando
um babaca de marca maior. O que falta em todas as coisas que listei acima? Eu
mesmo. Parece que assisto a minha vida se desenrolando perante meus olhos como
se tudo fosse um miserável déjà vu, ou como se eu simplesmente não fizesse
parte dela. Sou o protagonista da minha existência, puta merda. Era para eu degustar
cada átomo dessa terra, era para deixar o ar entrar nos pulmões com um sorriso
na cara e ficar feliz por estar aqui ainda. Não estou morto, oras. Afinal, a
morte na minha perspectiva é a alma deixando este velho pedaço de carne e ossos
para trás e indo para Deus sabe lá aonde as almas vão quando descarnam, mas o
que sinto é a carência de ligação com minha alma. É como se a linha telefônica
estivesse muda. Ela está comigo, porém desligada. Cadê o fio que nos unia?
Perdi nalguma dessas noites de insônia? Perdi no acidente de carro que quase me
custou um caixão quinze anos atrás? Se não é morte a alma ecoar ausência e o
corpo permanecer vivo, o que é, então? Não inventaram um nome em língua alguma
para o deterioramento do motor do espírito, para aquela hora em que ele consome todo
combustível e estagna o movimento. Se não fizerem isso logo, eu farei.
Só
sei, sei com a certeza que apenas poetas e doidos conhecem, que ainda há fogo
para se queimar aqui dentro de mim. Sua intensidade está ínfima agora, no
entanto não se extinguiu completamente. Fui feito das chamas e do pó das
estrelas que desbravaram os céus na primeira alvorada da Criação. Tenho um
universo no espírito, como todos têm, e embora ele caiba na cabeça de um
alfinete, se expande incansavelmente girando e girando da infinitude à
eternidade. Preciso rasgar as páginas do tempo e espaço. Preciso procurar a
animação perdida. Carpe diem? Nunca fui muito bom nessa porra. Tal qual uma praga
bíblica, devorei tudo que apareceu na minha frente com uma fome insaciável, fome
de vida, e nada consegui no processo, apenas vontade de mais e um vazio crescente
nos olhos e no coração. Talvez tenha trilhado o caminho da autodestruição, e
não o vivente que deveria ser. Foda-se. Quero paz, paz, paz. Equilíbrio. Por
que vocês são tão malditamente difíceis de conquistar, hein, seus putos?
Deus,
caso esteja aí me ouvindo, dá um sinal. Não vale mostrar o dedo médio. E me faça
enxergá-lo direito, ok? Tenho problema de vista e uns parafusos a menos.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Tristeza
O que será que pensava Deus quando inventou a tristeza?
Aposto que ele andava meio acabrunhado, cabisbaixo,
Pelos cantos do paraíso, melancolicamente imaginativo
Não posso guardar isto comigo, pensou, preciso criar
Algo que contenha toda esta doença que me assola
Perto de um riacho, pegou um punhado de barro
E fez o primeiro homem, oco, preenchendo-lhe
Com todo aquele sentimento que Lhe maltratava
E a felicidade, onde fica nesta história?
segunda-feira, 9 de julho de 2012
A Rosa
Há um recanto no encanto dos teus olhos
Uma coisa tão bonita que ganhou o meu clamor
Há tanta verdade, que beldades são teus olhos
Fortalezas e mistérios em apenas uma flor...
A rosa que nunca morria, que nunca morreu
O amor que nunca foi e que sempre será
Queria ter a magia, o dom de viver todo dia
Ao teu lado, sob as estrelas e o luar.
Você tem violão no coração e poesia na alma
Uma voz de rios bravios buscando calma
Mulher de virtudes e força, que natureza dengosa
Com seu perfume, você vem toda formosa...
A rosa que nunca morria, que nunca morreu
O amor que nunca foi e que sempre será
Queria ter a magia, o dom de estar todo dia
Ao seu lado pela eternidade a caminhar.
Conheço teus defeitos e jeitos como ninguém
Te desejo muita felicidade e nada além
Até admiro a tristeza quando dividimos lamentos
Sei que a vida não é só contentamento...
(Também sei que a vida tem os seus momentos...)
A rosa que nunca morria, que nunca morreu
O amor que nunca foi e que sempre será
Queria ter a magia, o dom de sonhar todo dia
Ao teu lado, sem jamais me despertar.
Tenho a esperança de uma criança, confesso
Mas esta é a esperança de um trovador
Você já sorriu e partiu, e eu não me despeço
Nem peço desculpas por ser tão sonhador...
A rosa que nunca morria, que nunca morreu
O amor que nunca foi e que sempre será
Queria ter a magia, o dom de viver todo dia
Ao seu lado...
Geni
Estou cansado desabo no leito do peito da morena que passa e
sorri
Cascatas negras nas costas serenas das penas de um amor que
perdi
Apesar dos defeitos, aceito com todo o respeito qualquer
situação
Até agulhas extremas de algemas pequenas; morena, cadê o perdão?
Fiquei prostrado abalado ao andar requebrado de marinheira,
Geni
Veio enfeitada matreira banhada e pelada na cheia lua, eu vi
Ai quem me dera a fera rolasse a esfera à espera de minha
canção
E seu espanto tirasse o manto, mortalha gentalha, do meu
coração
Já fui enganado esnobado e confesso que peço ao senhor
bem-te-vi
Que leve pra um canto todo o desencanto deste amor que sofri
Sujeito todo insatisfeito prossigo como bom inimigo dessa
doce ilusão
Com espada e escudo, estudo o espinho e mudo o caminho das mãos
Leio a Sorte, sou forte, mas da menina da esquina jamais me
esqueci
Sarracenas cascatas nas serenas costas de penas e pernas,
amei apenas Geni
Maldita Geni...
Bendita Geni...
terça-feira, 3 de julho de 2012
O Destino dos Deuses
Alguém sabe ou supõe
Que sina teve o panteão do Olimpo?
Arrisco dizer que aquilo
Rolando abaixo as escadarias do tempo
É a cachola do grande Zeus.
E que o Inferno está fechado
(está à venda, aos interessados)
Porque Hades enloqueceu.
Hera e Afrodite viraram rameiras
Apolo, um canastrão,
Ártemis casta, foi corrompida,
Hermes tornou-se ladrão.
Ouso imaginar Ares aposentado,
Um hippie nos anos sessenta.
Héstia e Hefesto casados
Com três filhos e um fusqueta.
Atena, muito sabida, continua a mesma
Só que está mais radical.
E Poseidon, velho lobo-do-mar,
Cada vez mais brutal
Nunca abandonou seus desígnios.
Os Titãs já são história...
As Moiras foram para o asilo...
Quanto ao resto se ignora.
Cadê todo mundo???
Tem alguém aí??? Leitores, se manifestem!!! Deem sinal de vida!!! Divulguem o blog se gostaram dele!!! E, caso não queiram escrever nos comentários, enviem e-mails com críticas, opiniões, sugestões e as explicações do desafio para ctelcontar@hotmail.com.
Estarei esperando por vocês.
Estarei esperando por vocês.
domingo, 24 de junho de 2012
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Vendo
Vendo um mundo,
Impassível à noite caladaE com ótima vizualização do universo.
Vendo-o, e estou desesperada.
Venderei-o para ambiciosos ou vingativos
Pois farei, assim, alguém feliz.Dou-lhe, oh comprador, meus distintivos
Quero, novamente, ser aprendiz.
Tal mundo tem mentiras e fracassos,
Violência e ódio,Cabeças frias e frouxos laços,
Venha, e suba logo neste pódio.
Já não há o que fazer por aqui,
A não ser comandar esta pensão.Tudo eu perdi,
Exceto minha razão.
Por isso, aqui fica tudo que fora perdido,
Deixo as guerras, os campos e a chuva,Assim como meu amor desmedido
E, pra não sujar uma de suas mãos, deixo-lhe uma luva.
Direi o preço da Terra e da gravidade
Sem metáfora ou demora:Solidão, conhecimento e liberdade.
Com minha guitarra flamejante, já vou embora.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Soneto
Desenhos engraçados no vidro embaçado
Todo um universo dorme e ronca lá fora
Piscam os postes e neons por onde eu passo
Como antigas amantes sedutoras na noite
As ruas molhadas com pessoas orvalhadas
Numa cidade pútrida de enxofre e horas
Desamarradas do relógio. Descompasso
Ondulações no tecido lacustre da meia-noite
Um soneto, alguns versos em branco e preto,
Jogados contra as paredes corroídas do medo
Creio que ainda cheguei um tanto cedo
Algumas rimas, desconexas ou com cismas,
Escritas nos vidros embuçados de janelas
Ocultas em faces já cansadas de querelas
domingo, 10 de junho de 2012
Desafio
O poema anterior é repleto de referências da cabeça aos pés. Foi feito por mim como homenagem a vários artistas e obras dos mais diversos meios culturais, além de incluir uma ou outra alegoria a velhos ditos populares e alguns jogos de palavras.
Proponho um desafio: quem descobrir o maior número de referências dentro de um mês terá o nome publicado no blog junto a um texto de sua própria autoria e receberá diretamente em casa uma caixa de bombons (após me passar o endereço, é claro),
Para começar e ser justo, vou ajudá-los com uma que vocês jamais poderiam saber: a parte da Austrália tem a ver com algo que estou escrevendo e pretendo publicar num futuro próximo. O título provisório desse livro é "O Mundo em seus fins".
Tirando isso, o resto é por vossa conta.
Boa sorte a todos!!!
PS: quando o prazo acabar, farei um post explicando tudo que está presente no poema. Palavra de poeta morto.
Proponho um desafio: quem descobrir o maior número de referências dentro de um mês terá o nome publicado no blog junto a um texto de sua própria autoria e receberá diretamente em casa uma caixa de bombons (após me passar o endereço, é claro),
Para começar e ser justo, vou ajudá-los com uma que vocês jamais poderiam saber: a parte da Austrália tem a ver com algo que estou escrevendo e pretendo publicar num futuro próximo. O título provisório desse livro é "O Mundo em seus fins".
Tirando isso, o resto é por vossa conta.
Boa sorte a todos!!!
PS: quando o prazo acabar, farei um post explicando tudo que está presente no poema. Palavra de poeta morto.
Heróico Pout-Pourri
Bem no início, encarando o precipício,
A Dama Funérea foi minha consorte.
Veio comigo no primeiro desembarque,
Junto à ideia de dinossauros num parque.
Deus então jogava dados como esporte.
Poucas fogueiras e mel lambiam os céus,
Na aurora da Ciência e Magia, as irmãs.
Só existiam cogumelos, xamãs e poemas
Enoquianos recitados de alturas extremas.
Os astronautas cinzentos queriam é fãs.
Estudei sânscrito como um proscrito,
Depois de ser amaldiçoado divinamente
Junto a Nabucodonosor com a licantropia.
Qual menino-lobo, vagabundeei dia a dia,
Até Proteus me restaurar com sua mente.
Perdido na Ilha, convenci Calipso de que isso
De esconder coisas era grande bobagem.
“Pegue Ulisses e o amarre na cama contigo”
“Pois graças a ele Roma logo será um perigo”
“Enéias carregou seu Cavalo na bagagem”.
Kublai Khan aconselhei, o motivo não sei,
Mas gostei de encontrar aquele tal Polo.
Então tive na Austrália a partida de xadrez,
O roubo da lua e o Constante Mago inglês.
Tento esquecer Chatotorix e seus solos!
Em plena escalada de Jacó e sua escada,
Lembro como Borges atormentava o alfabeto
Enquanto um garoto pelas ruas se torcia.
E a bela Capitu entre lençóis apenas ria,
Embora Gilead tivesse balas até o teto.
Confesso que o bravo era quase um parvo,
Orlando fora meu amigo na Liga descomunal.
Guiamos Virgilio e Dante em nossas jornadas
Batalhamos pelo férreo trono de espadas.
Excalibur cantou os clangores de metal.
E com Quixote, empunhando um archote,
Lideramos o êxodo da queda de Gondolin.
Enfrentamos exércitos de orcs
e moinhos
Sobrevivemos comendo sobras e espinhos.
Quem me dera achássemos um munchkin!
Pinguins elementares entoavam hare hares
Para o centro da terra e ao seu redor
Ao viajarem comigo no zepelim da Geni
Lisa e Darcy chutavam alguns zumbis.
Oitenta dias de meditação e Suor.
Vivi o triste teatro de oitenta e quatro,
Era um mundo nada novo ou admirável!
Exceto pelo cemitério de livros esquecidos
Com seus heróis de mil faces lá reunidos.
Todos contra o fraterno detestável.
Já estive com escorbuto e marabutos,
Desbravando She e as Minas Salomônicas.
Sentei-me sob pesadas noites de calor,
Ouvindo griots
narrar histórias de amor
Sobre Mu e sumidas terras polifônicas.
Dentro da branca baleia beijei uma sereia
Linda, morena e de beleza toda gótica.
Fui preso como Long John, sem tesouro,
Mas escrevi cem versos crus no couro
Quebrando assim as leis da robótica.
A Antártida foi evitada, quanta palhaçada,
Eram tempos de carnaval e prepóstero!
Sem especulares países ou rainhas de baralho,
Nem Marte e Sonhar, dei um nó no carvalho,
E não mais peguei a carona de Próspero.
Marília fui eu quem mostrou a Dirceu,
Eis porque dobram os sinos na prosa.
O idiota russo e os miseráveis de França
Têm comigo de Arkham boas lembranças:
Procurávamos por algum nome da rosa.
A lâmpada do gênio, durante um milênio,
Realizou meus desejos e vontades.
Fiz Sonserina se tornar uma doninha,
E a bela musa de Petrarca ser minha,
E dela jamais novamente ter saudades.
Acompanhando ciganos e segredos arcanos,
Numa tarde de março cheguei a Macondo.
Vi Melquíades ensinar truques ao maluco
Que corria derrubando parafusos dum cuco
Maravilhado porque o mundo era redondo.
Num pub em Dublin, conheci o velho Tim
Brindamos aos deuses ébrios do passado!
E ouvi sua história de despertar no caixão.
Dizia que o uísque bento fora sua salvação
Quando tocou seus lábios secos de finado.
Certa vez fiz um corvo virar um estorvo,
Berrando aos sete ventos “nunca mais!”.
Conversei com a Loucura de Rotterdan,
Aprendi o significado de ser Peter Pan,
E com a sábia Aranha assaltei cafezais.
Andando pelo Sol, eu fisguei como anzol
Uns Dráculas angelicais em suas centelhas.
Fausto, o Diabo e Milton comigo tomam chá,
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá
E o detetive cuida bem de suas abelhas.
Em algum lugar, ao avistar enfim o mar,
Rugiram em mim ancestrais magiares!
Daí fui rei de castelos de areia corrida,
Mas as ondas destruíram a minha vida.
Estava morto quando passei por Antares.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Não sei...
Não sei o que há no lugar onde o céu beija o mar...
Nem qual mensagem se esconde no cantar do trovão...
Não sei de qual matéria são feitos sonhos, se de fumaça ou
concreto...
Nem por que a luz insiste em iluminar as trevas e as trevas
em apagar a luz...
Não sei por que pequenos momentos se congelam no tempo...
Nem se a chuva cai para lavar as almas que estão
machucadas...
Desconheço a diferença entre o sábio e o tolo, o rosa e o
cinza...
Não sei o que seria de minha vida se não tivesse você...
Mas sei o que é o Amor,
eu te amo muito...
Sei que a felicidade é real e você faz parte dela...
E também que Deus existe e olha por nós...
E isto já é o suficiente.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
O espectador expectorante
O espectador expectorante assua toda sujeira que vê no
tétrico drama da vida
Quando o palco é dele, outrem pega o lenço verde-musgo e faz
a mesma coisa
Um mundo de espectadores sinusitais que expectoram
incessavelmente como títeres triviais
A mão invisível os afaga e oferece mais uma dose de morfina
Alergia existencial e letargia cerebral racham a pele e o
crânio de todos
Escorre a gosma humana pelos poros da galáxia
Haja lenço para tanta imundice e remédio para tanta
realidade.
domingo, 27 de maio de 2012
Considerações de uma breve vida - 1
Cada artista tem sua arte, uns pintam, outros cantam, dançam, escrevem... Cada um com sua utopia de liberdade, ou seria liberdade utópica?
Eu sou uma artista, coisas banais me inspiram. Tiro proveito daquilo que não querem ver, sigo, sob o luar, a trilha que as pessoas temem falar durante o dia.
Mas, da minha arte ninguém partilha. Ela é forte, extrema. Não serve para fracos e nem para fortes, apenas para mim.
Ela faz do cosmos seu espectador, é sentida em qualquer lugar do universo, mas apenas por mim.
Seu alimento é seu próprio amor, sua própria admiração. Sua força sou eu.
Me disseram que ela era proibida, criminosa, assassina. Que não tinha limites, que eu me excluiria, e que eu acabaria voltando pra mim mesma.
Pra ser sincera, não poderia agarrar-me a nada mais perfeito que ela. Pra todos é um ouro de tolo, pra mim, sou eu, simetricamente perfeita.
É minha resolução, minha prática e teoria. É meu ópio, minha cura por sangria.
Minha arte chama-se fracasso, ou seria eu a arte do fracasso?
Eu sou uma artista, coisas banais me inspiram. Tiro proveito daquilo que não querem ver, sigo, sob o luar, a trilha que as pessoas temem falar durante o dia.
Mas, da minha arte ninguém partilha. Ela é forte, extrema. Não serve para fracos e nem para fortes, apenas para mim.
Ela faz do cosmos seu espectador, é sentida em qualquer lugar do universo, mas apenas por mim.
Seu alimento é seu próprio amor, sua própria admiração. Sua força sou eu.
Me disseram que ela era proibida, criminosa, assassina. Que não tinha limites, que eu me excluiria, e que eu acabaria voltando pra mim mesma.
Pra ser sincera, não poderia agarrar-me a nada mais perfeito que ela. Pra todos é um ouro de tolo, pra mim, sou eu, simetricamente perfeita.
É minha resolução, minha prática e teoria. É meu ópio, minha cura por sangria.
Minha arte chama-se fracasso, ou seria eu a arte do fracasso?
sábado, 26 de maio de 2012
Depois do fluxo
Depois do fluxo, a confusão, o vazio. A tormenta criativa
passou,
Deixando escombros de ideias e versos fragmentados
Esparramados por todos os cantos.
Ébrios neurônios cambaleando pelos jardins da gramática,
Procurando alguma literatura para exorcizar seus demônios.
Entorpecimento. Tudo lento. Digno de lamento.
Calou-se o estro, chama minguante como o sorriso da lua.
Que tristeza.
domingo, 20 de maio de 2012
O garoto com o cabelo de fogo
Com suas mãos finas e brancas a terra ele escavou,
Sob o luar frio e infinito,
Procurando o amor escondido,
Mas fora um pergaminho que encontrou.
Nele, foram lacradas com palvras suas projeções e seus sentimentos
Restando ao garoto o Coração de Pedra,
Que, assim como o adubo, medra
E lhe serve de alimento.
Como uma alma fora do corpo
Ele via o rio correr
Voltando à fonte para beber
A água mais pura e não a virgem madura.
O amanhã já estava caindo,
Começou logo se despindo,
Sem resolver o que o ocupava,
Sem resolver o que o ocupava,
E desenhou uma velha cena
Dizem que tal garoto nunca mais fora visto
Pois apaixonou-se tão completamente pelo fogo de suas palavras
Que, no rio-espelho das madrugadas,
Abaçou a morte e disse: “leve-me pois me descobri, sou a
chama de Narciso”.
Olhos abertos
É um sol quente
Em um inverno gelado,
Entra na alma e a derrete
Anula e cria-me, psicodélico.
Minha caça se aproxima
E a arma está pronta,
Na floresta, tenho munição infinita
E ela, olhar fixo em minha cabeça.
Entra e sai dos meus olhos sem pedir
Não há tensão,
Entorto meu corpo e lá está o ferrão,
Ainda assim, deixa-me insistir.
Em um inverno gelado,
Entra na alma e a derrete
Anula e cria-me, psicodélico.
Minha caça se aproxima
E a arma está pronta,
Na floresta, tenho munição infinita
E ela, olhar fixo em minha cabeça.
Entra e sai dos meus olhos sem pedir
Não há tensão,
Entorto meu corpo e lá está o ferrão,
Ainda assim, deixa-me insistir.
sábado, 19 de maio de 2012
Lições Para Toda Vida
Estava sentado lá fora, no colo da noite, escutando seu calmo e lento respirar. Posso jurar que por vezes nesses momentos consigo ouvir as batidas do coração de Deus. Olhei para os céus e vi uma estrela em sua flamejante carruagem desbravando a nossa atmosfera de um horizonte a outro. Sua cauda de caleidoscópios se estendeu tal qual véu de noiva, uma noiva celeste, e nela havia uma carta amarrada.
Estendi a mão como se soubesse que era para fazê-lo, e ela se soltou e veio até mim como num passe de mágica. O papel, meio carcomido pelas intempéries cósmicas, continha letras miúdas, garranchos escritos em gelo, fogo e ébano. Reproduzirei aqui exatamente aquilo que li:
“A vida é eu, tu, ele e ela, nós, vós, eles e elas.
A vida é uma navalha. Andamos por sua afiada lâmina, e é preciso ter cuidado, mas não devemos temê-la. São muitos os que receiam a mão que a manuseia, e por causa disso preferem não ousar dar nem um mísero passo. Ficam parados, e ali passam todo o tempo até a hora derradeira alcançá-los. Mas que medo mais bobo, não enxergam que a mão que empunha a navalha é a deles mesmos? Cada um controla sua própria lâmina. Às vezes nos cortamos e manchamos tudo de sangue e lágrimas, sim, porém aprender a aproveitá-la direito leva anos e anos de prática, e machucar-se faz parte do aprendizado. Além disso, quem disse que estamos sozinhos nesta árdua tarefa? Em vários momentos necessários temos uma mão invisível guiando a nossa, como um pai guiando seu filho, ensinando-o a ter segurança e firmeza ao segurar coisa tão pequena e preciosa.
A vida é um precipício. Estamos bem na boca do desfiladeiro, a melhor solução é saltar. Alguém acreditaria em mim se eu dissesse que podemos voar? Pois podemos. Ninguém falou que o fundo do abismo é o único destino quando pulamos direto nele. Existe um par de asas para todo ser vivo neste universo, bem nas costas, e ele se chama crença. A fé não move montanhas. Ela nos faz passar por cima delas, nos faz agarrar nuvens, e tocar planetas e dedilhar cordas de violões feitas de átomos oníricos. Sonhos que cabem em um belo e singelo lá menor.
A vida é um travesseiro. Rodeada por trevas e sombras, recheada por coisas que se esgueiram na escuridão tanto exterior quanto interior. Às vezes esse travesseiro parece um objeto duro demais, suportando cabeças pesadas demais onde apenas pesadelos arriscam habitar. Às vezes, contudo, parece ser um tecido macio, leve como uma pena, em que encostamos para descansar, e neste ato ele vira um seio materno que acalenta e alimenta nossos lábios sedentos por fantasias e esperanças. É o cavaleiro que vigia, protegendo a imaginação reflexiva da fagulha divina existente em tudo e em todos. Veja, lá está!
A vida é morte, e a morte é vida. Ambas são dois lados da mesma face, dois pontos do mesmo caminho, duas estações no mesmo tempo, como da primavera ao inverno. Saiba que sob o implacável sol do mistério jaz a cobra que morde o próprio rabo, o laço interminável representando o ciclo perpétuo das coisas. Não devemos ter medo do fim, nem do começo, e muito menos do meio. Quando a Morte vier, no segundo em que for realmente para ela chegar portando foice e paz, deve ser recebida com um abraço por ser velha amiga íntima, e um banquete por ter uma fome que tudo n’algum dia devora. Cortejá-la e aceitá-la, mas só quando a última areia da ampulheta atingir o topo do monte na devida hora. Antes disso, jamais se esquecer de viver. É uma luta brava, mas recompensadora tanto aqui como no que vem a seguir.
A vida é milagre. Vencemos a corrida dos espermatozoides. Você pode alegar que foi um evento aleatório e que qualquer um daqueles microscópicos cabeçudinhos poderia ter ganhado, mas e daí se foi isso mesmo que aconteceu? Pode ser que tenhamos sido escolhidos e/ou abençoados, ou que sejamos puramente sortudos e/ou trapaceiros. Não importa. O que importa é que estamos aqui, dentre zilhões de possibilidades e probabilidades, nascemos, e isto nos transforma num acontecimento prodigioso, inigualável. Somos miraculoso fato.
A vida é Amor. Com letra maiúscula porque é o verdadeiro, muito além do sexo e dos relacionamentos emocionais, embora no âmago contenha ambos. É o dom de unir e comungar as almas. O todo em si e o todo em dois que se somam. Juntos, seja como família, como amantes, como amigos, ou apenas seres vivos, somos a totalidade, somos Deus em seu extremo poder, onisciência e onipresença. Geramos vida, renovamos, renascemos, legamos. E, de especial maneira, ultrapassamos os confins do finito e superamos até mesmo o infinito. Afinal, criamos mundos com a mente e o coração, e neles colocamos parte da essência e do todo que há em nós.
Pensando melhor, a vida simplesmente é, e em meramente ser está completa”.
Fechei a mensagem vinda do desconhecido além Terra e dei um sorriso. Quem quer que tenha sido o autor dessa página perdida de livro de autoajuda sideral, alienígena ou divindade, sabia o que eu estava enfrentando ultimamente. E me enviou luz e sabedoria. Sou lhe grato por isso.
Estava incerto do meu estado. Após tantas mortes vividas e vidas morridas, pensei que já fosse um zumbi. Agora sei que sou humano, estou vivo e tenho Amor. E que isto para mim basta.
Felicidade maior não há.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Cthulhu ficaria orgulhoso
Não, não sou um homem de letras.
Que definição barata!
Por que insistem em me chamar assim?
Posso até não ser feito de carne e ossos,
Certo de que minha matéria é tinta e páginas.
Mas, antes, deviam notar que sou imaginação
Como vocês,
Pois é isto que nos faz homens.
Letras são apenas ferramentas, meus caros
Para construir palácios monumentais
De maravilhas perdidas
Em reinos de faça o que quiser.
Alguns detêm mais habilidade
No manuseio dos instrumentos,
Outros menos.
Alguns terminam sendo rústicos,
Enquanto outros se aprazem rebuscados.
Mas cuidado! Ocorre que, com um punhado
De fantasia e uma boa dose de loucura,
O ato de gerar novas realidades acontece
Automaticamente, e isto
Magicamente
Nos transforma
Em meros veículos.
Reparamos tarde demais:
Não somos nós quem controlamos as histórias
São elas que nos controlam.
Não as temos em mãos
São elas que nos têm
E nos usam como mero transporte físico
A fim de se espremerem pelas
Rachaduras
Entre
Dimensões...
As palavras tinham o maligno plano de dominar o mundo.
Já conseguiram.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Grifo
Vivo e morro todo dia
Sem foco, sem amor
Parece um tufão de agonia
Mas, então, sinto uma leve paz
Emana de minha visão aquilo que faz
Aquela flecha que atinge
O raio que cai
O pensamento que age
Tal paz aumenta,
Sinto-me um grifo
Voo, com razão,
Sem bater a asa que
proteje o ouro
terça-feira, 1 de maio de 2012
Barrabás Teodoro Barnabé da Montanha [divaga]
- É bonito, não é mesmo, rapaz? Todo este oceano,
se estendendo infinitamente rumo ao inexprimível. Faz você imaginar o que
existe além do lugar onde o céu e o mar se beijam e as estrelas se deitam... Terra?
Magia? Morte? Talvez um deus, sentado num grande trono dourado, coçando a
própria barba e rindo de nossas tolas tentativas de entender o que de fato são
o mistério e o desconhecido...
"Sabe, o problema do homem, a meu ver, é não conseguir
enxergar nada que esteja um pouco a frente de seu limite de visão. Nos falta
perspectiva, garoto. Vivemos presos num mundinho de três dimensões e estamos
fadados a lutar pela nossa tridimensionalidade. Tudo quanto é batalha, das
enormes guerras ao trivial cotidiano que enfrentamos, cada gota de suor e
sangue derramados por nós foi, é e será por espaço e tempo. Você deve tá
achando que estou resumindo ou simplificando demais as coisas (nem Einstein que
era um gênio conseguiu uma lei universal, quem sou eu para ousar tanto), mas
pense comigo por um instante: a gente não briga por um lugar no mundo e na vida
das outras pessoas? Sim, afinal queremos ter um pedaço do mapa geográfico para
morar, e queremos conquistar as pessoas que nos cercam e mais ainda aquelas que
amamos. Desejamos entrar e se aconchegar num canto de seus corações e mentes. E
isto já não é uma disputa pelo tempo? Ser lembrado, recordado... É inegável.
Nunca conheci alguém que não deixasse uma mísera marca que fosse, de algum
modo, ao passar por este planeta. Alguns deixam seu legado através dos filhos.
Perpetuação da espécie. Ah, tenho uma história bacana sobre heranças, se você
quiser escutar. Posso te contar... Hoje não? Ok, então. Fica pra próxima vez. O
meu ponto, meu caro, é que desde a corrida dos espermatozoides até o último
suspiro, cada ser vivo existente está fixo nesta constante espaço-temporal. Por
ironia, a morte é nossa liberdade, no final de contas. Karma é mesmo uma vadia,
não é?".Pequeno trecho de fala de uma história em produção (pretendo transformá-la em quadrinhos um dia).
quarta-feira, 25 de abril de 2012
O semeador
Gostaria muito de conseguir semear
Um poema hoje para amanhã colher
O mais saboroso fruto, o amor.
Gostaria muito de apenas capturar
Uma estrela agora, pois a ela daria
O nome que me vem à mente.
E gostaria muito que este nome
Gravado a fogo não fosse
O do rosto em meus sonhos.
Gostaria porque seria mais fácil,
Gostaria pois não desejaria, acho,
Que tais sonhos virassem reais.
Afinal, gostaria, de fato, que você se tornasse
O amor que amanhã eu colheria.
Assim planto, neste instante, poesia.
Um poema hoje para amanhã colher
O mais saboroso fruto, o amor.
Gostaria muito de apenas capturar
Uma estrela agora, pois a ela daria
O nome que me vem à mente.
E gostaria muito que este nome
Gravado a fogo não fosse
O do rosto em meus sonhos.
Gostaria porque seria mais fácil,
Gostaria pois não desejaria, acho,
Que tais sonhos virassem reais.
Afinal, gostaria, de fato, que você se tornasse
O amor que amanhã eu colheria.
Assim planto, neste instante, poesia.
terça-feira, 24 de abril de 2012
O inverno está chegando...
Prometi a mim mesmo que durante muito tempo não colocaria um olho sequer na série ou nos livros "As Crônicas de Gelo e Fogo", de G. R. R. Martin. Eu já sabia que quando isso acontecesse, virar um fã fanático seria inevitável.
Confesso que tinha minhas dúvidas a respeito de Game of Thrones no começo. Rumores demais de que era algo que lembrava "O Senhor dos Anéis" (o amor literário da minha vida!!!) com uma boa dose de sexo e uma extra de intrigas. Fiquei receoso que fosse verdade, porém desde o momento em que li a primeira página do primeiro livro e assisti ao primeiro episódio da HBO, meus medos se mostraram idiotamente insignificantes.
Há sexo? Claro, e muito. Reviravoltas em todo lugar? Sim, e creio que não seria um bom romance de disputa pelo trono se não tivesse isso. É como "O Senhor dos Anéis"? Não. Esqueça as comparações. As dinâmicas presentes nas obras de Tolkien e nas de Martin são bem diferentes. Recomendo a todos que leiam um pouco dos dois e/ou assistam às adaptações de seus trabalhos. Vocês vão concordar comigo que os corações que embalam as histórias de ambos, embora bombem em suas veias imaginação, magia e fantasia puras, são distintos.
No entanto, não nego que a influência de Tolkien se faça por vezes presente. Até um cego notaria que Martin leu e bebeu da fonte tolkeniana. Mas digamos que ele aprendeu com o mestre e, como qualquer bom aluno, prestou sua homenagem ao professor colocando seus ensinamentos mais importantes em prática e criando algo novo. Ao ser original enquanto se apóia em ombros de gigantes, Martin acabou mostrando, como um bom aprendiz tenta com frequência fazer, que tem potencial para superar o próprio mestre. Veja bem, não estou falando que ele conseguiu! E veja melhor ainda, por idolatrar tanto Tolkien sou suspeito para dizer tal coisa!
No final, se há uma coisa que posso certamente afirmar, é que o autor de "As Crônicas de Gelo e Fogo" faz por merecer um lugar entre as constelações de grandes nomes da literatura mundial. Caso ninguém o tenha colocado lá ainda, não sei o que estão esperando! Para mim, ele já ganhou uma cadeira junto a Tolkien no panteão dos escritores. Agora jamais me esquecerei de que "o inverno está chegando...".
PS: na foto, eu desfrutando meu momento mais nerd de domingo sentado no objeto mais cobiçado de toda a série. =D

