domingo, 10 de junho de 2012

Heróico Pout-Pourri


Bem no início, encarando o precipício,
A Dama Funérea foi minha consorte.
Veio comigo no primeiro desembarque,
Junto à ideia de dinossauros num parque.
Deus então jogava dados como esporte.

Poucas fogueiras e mel lambiam os céus,
Na aurora da Ciência e Magia, as irmãs.
Só existiam cogumelos, xamãs e poemas
Enoquianos recitados de alturas extremas.
Os astronautas cinzentos queriam é fãs.

Estudei sânscrito como um proscrito,
Depois de ser amaldiçoado divinamente
Junto a Nabucodonosor com a licantropia.
Qual menino-lobo, vagabundeei dia a dia,
Até Proteus me restaurar com sua mente.

Perdido na Ilha, convenci Calipso de que isso
De esconder coisas era grande bobagem.
“Pegue Ulisses e o amarre na cama contigo”
“Pois graças a ele Roma logo será um perigo”
“Enéias carregou seu Cavalo na bagagem”.

Kublai Khan aconselhei, o motivo não sei,
Mas gostei de encontrar aquele tal Polo.
Então tive na Austrália a partida de xadrez,
O roubo da lua e o Constante Mago inglês.
Tento esquecer Chatotorix e seus solos!

Em plena escalada de Jacó e sua escada,
Lembro como Borges atormentava o alfabeto
Enquanto um garoto pelas ruas se torcia.
E a bela Capitu entre lençóis apenas ria,
Embora Gilead tivesse balas até o teto.

Confesso que o bravo era quase um parvo,
Orlando fora meu amigo na Liga descomunal.
Guiamos Virgilio e Dante em nossas jornadas
Batalhamos pelo férreo trono de espadas.
Excalibur cantou os clangores de metal.

E com Quixote, empunhando um archote,
Lideramos o êxodo da queda de Gondolin.
Enfrentamos exércitos de orcs e moinhos
Sobrevivemos comendo sobras e espinhos.
Quem me dera achássemos um munchkin!

Pinguins elementares entoavam hare hares
Para o centro da terra e ao seu redor
Ao viajarem comigo no zepelim da Geni
Lisa e Darcy chutavam alguns zumbis.
Oitenta dias de meditação e Suor.

Vivi o triste teatro de oitenta e quatro,
Era um mundo nada novo ou admirável!
Exceto pelo cemitério de livros esquecidos
Com seus heróis de mil faces lá reunidos.
Todos contra o fraterno detestável.

Já estive com escorbuto e marabutos,
Desbravando She e as Minas Salomônicas.
Sentei-me sob pesadas noites de calor,
Ouvindo griots narrar histórias de amor
Sobre Mu e sumidas terras polifônicas.

Dentro da branca baleia beijei uma sereia
Linda, morena e de beleza toda gótica.
Fui preso como Long John, sem tesouro,
Mas escrevi cem versos crus no couro
Quebrando assim as leis da robótica.

A Antártida foi evitada, quanta palhaçada,
Eram tempos de carnaval e prepóstero!
Sem especulares países ou rainhas de baralho,
Nem Marte e Sonhar, dei um nó no carvalho,
E não mais peguei a carona de Próspero.

Marília fui eu quem mostrou a Dirceu,
Eis porque dobram os sinos na prosa.
O idiota russo e os miseráveis de França
Têm comigo de Arkham boas lembranças:
Procurávamos por algum nome da rosa.

A lâmpada do gênio, durante um milênio,
Realizou meus desejos e vontades.
Fiz Sonserina se tornar uma doninha,
E a bela musa de Petrarca ser minha,
E dela jamais novamente ter saudades.

Acompanhando ciganos e segredos arcanos,
Numa tarde de março cheguei a Macondo.
Vi Melquíades ensinar truques ao maluco
Que corria derrubando parafusos dum cuco
Maravilhado porque o mundo era redondo.

Num pub em Dublin, conheci o velho Tim
Brindamos aos deuses ébrios do passado!
E ouvi sua história de despertar no caixão.
Dizia que o uísque bento fora sua salvação
Quando tocou seus lábios secos de finado.

Certa vez fiz um corvo virar um estorvo,
Berrando aos sete ventos “nunca mais!”.
Conversei com a Loucura de Rotterdan,
Aprendi o significado de ser Peter Pan,
E com a sábia Aranha assaltei cafezais.

Andando pelo Sol, eu fisguei como anzol
Uns Dráculas angelicais em suas centelhas.
Fausto, o Diabo e Milton comigo tomam chá,
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá
E o detetive cuida bem de suas abelhas.

Em algum lugar, ao avistar enfim o mar,
Rugiram em mim ancestrais magiares!
Daí fui rei de castelos de areia corrida,
Mas as ondas destruíram a minha vida.
Estava morto quando passei por Antares.

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