quinta-feira, 8 de novembro de 2012

(Di)Fuso Horário


  Ser insone tem suas vantagens. Por exemplo, consigo sentir milhões de sonhos pairando no ar, remexendo enquanto flutuam noite afora até as raízes coletivas do universo. Alguns são leves, belos, coloridos, ao passo que outros são pedregosos, sofridos e assustadores. Basta me mexer e esbarro em um sonho ou pesadelo alheio. Gosto de fazer uma brincadeira: escolho uma dessas histórias errantes, seguro ela em minhas mãos e escuto o que está dizendo. Como um punhado de areia onírica, cada grão escorrega por entre meus dedos cantando canções de terras longínquas, absurdos e delírios, verdades e revelações. Sentado em volta da fogueira, atencioso para o xamã cuja sombra se ergue gigantesca no vale, contrastante com a alva lua que navega em seu oceano de estrelas, eu me perco pelos labirínticos caminhos da narrativa que preenche o mundo naquele instante. Crio asas, sou Ícaro, mas não caio quando voo perto do sol. Ao contrário. Comungo com ele, envolvendo-me em chamas, virando fênix e cinzas. Delas renasço, desperto. Olhos abertos, percebo os sulcos no rosto do velho, e neles há palavras escritas, como se fossem linhas em um livro. Ele para de contar o que estava contando, ciente de que agora eu havia enfim notado que cada ruga e marca em seu corpo judiado pelo tempo falavam por si mesmas. Eram tantas histórias, tantas vozes destoantes e simultaneamente em uníssima concordância, todas boiando como bolhas de sabão em direção aos céus, elevadas pela invisível força da imaginação, tais quais os sonhos que durante a noite capturo e ouço. Guardo-as em meu coração. O cérebro se esquece de certas coisas, o coração sempre lembra.   Acordo dos devaneios ao cair do último grão morfético. Agora vou dormir.

  Talvez seja um sono eterno. Espero que alguém brinque comigo da mesma maneira. Pode ser você? Tenta, vale a pena. Toma-a em punho e comece, você sabe todas minhas aventuras e desventuras. Elas estão aí dentro de ti. Abra a porta, escolha uma. Meu legado são as estruturas da imortalidade de todos os humanos...

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