Ser insone tem suas vantagens.
Por exemplo, consigo sentir milhões de sonhos pairando no ar, remexendo
enquanto flutuam noite afora até as raízes coletivas do universo. Alguns são
leves, belos, coloridos, ao passo que outros são pedregosos, sofridos e assustadores.
Basta me mexer e esbarro em um sonho ou pesadelo alheio. Gosto de fazer uma
brincadeira: escolho uma dessas histórias errantes, seguro ela em minhas mãos e
escuto o que está dizendo. Como um punhado de areia onírica, cada grão
escorrega por entre meus dedos cantando canções de terras longínquas, absurdos
e delírios, verdades e revelações. Sentado em volta da fogueira, atencioso para
o xamã cuja sombra se ergue gigantesca no vale, contrastante com a alva lua que
navega em seu oceano de estrelas, eu me perco pelos labirínticos caminhos da
narrativa que preenche o mundo naquele instante. Crio asas, sou Ícaro, mas não
caio quando voo perto do sol. Ao contrário. Comungo com ele, envolvendo-me em
chamas, virando fênix e cinzas. Delas renasço, desperto. Olhos abertos, percebo
os sulcos no rosto do velho, e neles há palavras escritas, como se fossem
linhas em um livro. Ele para de contar o que estava contando, ciente de que
agora eu havia enfim notado que cada ruga e marca em seu corpo judiado pelo
tempo falavam por si mesmas. Eram tantas histórias, tantas vozes destoantes e
simultaneamente em uníssima concordância, todas boiando como bolhas de sabão em
direção aos céus, elevadas pela invisível força da imaginação, tais quais os
sonhos que durante a noite capturo e ouço. Guardo-as em meu coração. O cérebro
se esquece de certas coisas, o coração sempre lembra. Acordo dos devaneios ao
cair do último grão morfético. Agora vou dormir.
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