Não sei o que acontece comigo. Vivo da maneira que eu quero, com praticamente
nenhuma rotina, dormindo quando me dá sono, comendo quando me dá fome,
estudando coisas que gosto, lendo e escrevendo constantemente. Tenho a garota
mais incrível do mundo ao meu lado, nos amamos mutuamente e muito, como
naqueles filmes em que o casal passa por algumas crises e continua junto no
final, pois tudo não passou de desafios a serem superados para fortalecer o
laço e o sentimento e blablabla. Vocês já sabem a história, vem sendo
reencenada desde que os primeiros apaixonados descobriram o romance. Tenho uma
família normal, cheia de qualidades e defeitos, mas não escolheria outra se
fosse me dada a chance. Estou bem na que nasci e nasceria de novo nela se
pudesse (isso soa mais estranho quando dito em voz alta, garanto). Tenho amigos
que considero irmãos e irmãs, extraordinários cada um de seu jeito particular, e
todos seguem comigo por partes desta estrada curva chamada de vida. Nos
encontramos cá e acolá, alguns se despedem e outros sempre retornam. Assim
vamos rumando para o incerto futuro, confiantes de que em algum momento o bar
se encherá novamente com as nossas vozes ébrias e risadas ressoantes, ou com
nossos choros e confissões, alegrias e tristezas ditas e não ditas. Mesmo que
os amigos e amigas tenham mais linhas do que minha namorada e minha família
neste texto, não estou colocando-os acima de ninguém, veja bem. São todos
igualmente importantes para mim, e acredito que seria muito doloroso perder
qualquer um deles.
Então,
o que há de errado comigo? Me sinto um ingrato reclamão, alguém que não valoriza o
quanto deve de fato valorizar o que tem e quem é, e por isso acabo me tornando
um babaca de marca maior. O que falta em todas as coisas que listei acima? Eu
mesmo. Parece que assisto a minha vida se desenrolando perante meus olhos como
se tudo fosse um miserável déjà vu, ou como se eu simplesmente não fizesse
parte dela. Sou o protagonista da minha existência, puta merda. Era para eu degustar
cada átomo dessa terra, era para deixar o ar entrar nos pulmões com um sorriso
na cara e ficar feliz por estar aqui ainda. Não estou morto, oras. Afinal, a
morte na minha perspectiva é a alma deixando este velho pedaço de carne e ossos
para trás e indo para Deus sabe lá aonde as almas vão quando descarnam, mas o
que sinto é a carência de ligação com minha alma. É como se a linha telefônica
estivesse muda. Ela está comigo, porém desligada. Cadê o fio que nos unia?
Perdi nalguma dessas noites de insônia? Perdi no acidente de carro que quase me
custou um caixão quinze anos atrás? Se não é morte a alma ecoar ausência e o
corpo permanecer vivo, o que é, então? Não inventaram um nome em língua alguma
para o deterioramento do motor do espírito, para aquela hora em que ele consome todo
combustível e estagna o movimento. Se não fizerem isso logo, eu farei.
Só
sei, sei com a certeza que apenas poetas e doidos conhecem, que ainda há fogo
para se queimar aqui dentro de mim. Sua intensidade está ínfima agora, no
entanto não se extinguiu completamente. Fui feito das chamas e do pó das
estrelas que desbravaram os céus na primeira alvorada da Criação. Tenho um
universo no espírito, como todos têm, e embora ele caiba na cabeça de um
alfinete, se expande incansavelmente girando e girando da infinitude à
eternidade. Preciso rasgar as páginas do tempo e espaço. Preciso procurar a
animação perdida. Carpe diem? Nunca fui muito bom nessa porra. Tal qual uma praga
bíblica, devorei tudo que apareceu na minha frente com uma fome insaciável, fome
de vida, e nada consegui no processo, apenas vontade de mais e um vazio crescente
nos olhos e no coração. Talvez tenha trilhado o caminho da autodestruição, e
não o vivente que deveria ser. Foda-se. Quero paz, paz, paz. Equilíbrio. Por
que vocês são tão malditamente difíceis de conquistar, hein, seus putos?
Deus,
caso esteja aí me ouvindo, dá um sinal. Não vale mostrar o dedo médio. E me faça
enxergá-lo direito, ok? Tenho problema de vista e uns parafusos a menos.
1 comentários:
Cauê, meu amigo, que texto maravilindo! Acredite vc n está só nesse sentimento de apatia. N sou poeta nem doida (apesar de ter sérias dúvidas quanto ao doida) mas acho q te compreendo, essa vontade de se deixar queimar por esse fogo q sabemos q temos, mesmo c a impressão de q estamos afogando num mar de nada e q nem adianta tentar nadar p se salvar. Talvez a gente fique viciado nessa melancolia e na culpa de sempre querer algo q está além (e q nem sei o q é)enquanto dizemos p nós mesmo q já temos o suficiente. Sei lá, a paz e o equilíbrio tbm fogem de mim, de mãos dadas c toda a minha energia... Incrível como seu texto fez sentido p mim.
[Comentário mto grande né? Mas é p compensar todos aqueles q eu n fiz,rs]
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