sábado, 19 de maio de 2012

Lições Para Toda Vida


  Estava sentado lá fora, no colo da noite, escutando seu calmo e lento respirar. Posso jurar que por vezes nesses momentos consigo ouvir as batidas do coração de Deus. Olhei para os céus e vi uma estrela em sua flamejante carruagem desbravando a nossa atmosfera de um horizonte a outro. Sua cauda de caleidoscópios se estendeu tal qual véu de noiva, uma noiva celeste, e nela havia uma carta amarrada.
  Estendi a mão como se soubesse que era para fazê-lo, e ela se soltou e veio até mim como num passe de mágica. O papel, meio carcomido pelas intempéries cósmicas, continha letras miúdas, garranchos escritos em gelo, fogo e ébano. Reproduzirei aqui exatamente aquilo que li:

  “A vida é eu, tu, ele e ela, nós, vós, eles e elas.
  A vida é uma navalha. Andamos por sua afiada lâmina, e é preciso ter cuidado, mas não devemos temê-la. São muitos os que receiam a mão que a manuseia, e por causa disso preferem não ousar dar nem um mísero passo. Ficam parados, e ali passam todo o tempo até a hora derradeira alcançá-los. Mas que medo mais bobo, não enxergam que a mão que empunha a navalha é a deles mesmos? Cada um controla sua própria lâmina. Às vezes nos cortamos e manchamos tudo de sangue e lágrimas, sim, porém aprender a aproveitá-la direito leva anos e anos de prática, e machucar-se faz parte do aprendizado. Além disso, quem disse que estamos sozinhos nesta árdua tarefa? Em vários momentos necessários temos uma mão invisível guiando a nossa, como um pai guiando seu filho, ensinando-o a ter segurança e firmeza ao segurar coisa tão pequena e preciosa.
  A vida é um precipício. Estamos bem na boca do desfiladeiro, a melhor solução é saltar. Alguém acreditaria em mim se eu dissesse que podemos voar? Pois podemos. Ninguém falou que o fundo do abismo é o único destino quando pulamos direto nele. Existe um par de asas para todo ser vivo neste universo, bem nas costas, e ele se chama crença. A fé não move montanhas. Ela nos faz passar por cima delas, nos faz agarrar nuvens, e tocar planetas e dedilhar cordas de violões feitas de átomos oníricos. Sonhos que cabem em um belo e singelo lá menor.
  A vida é um travesseiro. Rodeada por trevas e sombras, recheada por coisas que se esgueiram na escuridão tanto exterior quanto interior. Às vezes esse travesseiro parece um objeto duro demais, suportando cabeças pesadas demais onde apenas pesadelos arriscam habitar. Às vezes, contudo, parece ser um tecido macio, leve como uma pena, em que encostamos para descansar, e neste ato ele vira um seio materno que acalenta e alimenta nossos lábios sedentos por fantasias e esperanças. É o cavaleiro que vigia, protegendo a imaginação reflexiva da fagulha divina existente em tudo e em todos. Veja, lá está!
  A vida é morte, e a morte é vida. Ambas são dois lados da mesma face, dois pontos do mesmo caminho, duas estações no mesmo tempo, como da primavera ao inverno. Saiba que sob o implacável sol do mistério jaz a cobra que morde o próprio rabo, o laço interminável representando o ciclo perpétuo das coisas. Não devemos ter medo do fim, nem do começo, e muito menos do meio. Quando a Morte vier, no segundo em que for realmente para ela chegar portando foice e paz, deve ser recebida com um abraço por ser velha amiga íntima, e um banquete por ter uma fome que tudo n’algum dia devora. Cortejá-la e aceitá-la, mas só quando a última areia da ampulheta atingir o topo do monte na devida hora. Antes disso, jamais se esquecer de viver. É uma luta brava, mas recompensadora tanto aqui como no que vem a seguir.
  A vida é milagre. Vencemos a corrida dos espermatozoides. Você pode alegar que foi um evento aleatório e que qualquer um daqueles microscópicos cabeçudinhos poderia ter ganhado, mas e daí se foi isso mesmo que aconteceu? Pode ser que tenhamos sido escolhidos e/ou abençoados, ou que sejamos puramente sortudos e/ou trapaceiros. Não importa. O que importa é que estamos aqui, dentre zilhões de possibilidades e probabilidades, nascemos, e isto nos transforma num acontecimento prodigioso, inigualável. Somos miraculoso fato.
  A vida é Amor. Com letra maiúscula porque é o verdadeiro, muito além do sexo e dos relacionamentos emocionais, embora no âmago contenha ambos. É o dom de unir e comungar as almas. O todo em si e o todo em dois que se somam. Juntos, seja como família, como amantes, como amigos, ou apenas seres vivos, somos a totalidade, somos Deus em seu extremo poder, onisciência e onipresença. Geramos vida, renovamos, renascemos, legamos. E, de especial maneira, ultrapassamos os confins do finito e superamos até mesmo o infinito. Afinal, criamos mundos com a mente e o coração, e neles colocamos parte da essência e do todo que há em nós.
  Pensando melhor, a vida simplesmente é, e em meramente ser está completa”.

  Fechei a mensagem vinda do desconhecido além Terra e dei um sorriso. Quem quer que tenha sido o autor dessa página perdida de livro de autoajuda sideral, alienígena ou divindade, sabia o que eu estava enfrentando ultimamente. E me enviou luz e sabedoria. Sou lhe grato por isso.
  Estava incerto do meu estado. Após tantas mortes vividas e vidas morridas, pensei que já fosse um zumbi. Agora sei que sou humano, estou vivo e tenho Amor. E que isto para mim basta.
  Felicidade maior não há.

2 comentários:

Cauê Tamburini disse...

O título do texto é o mesmo de um filme de 2003, no qual um garoto é deixado pela mãe para morar com seus dois tios velhos, ricos e excêntricos, vivendo altas aventuras ao lado deles e com as histórias que eles lhe contam.
Recomendo, é um excelente filme, na minha modesta opinião.
Diretor: Tim McCanlies. Estrelando: Haley Joel Osment, Robert Duvall e Michael Caine.

Cauê Tamburini disse...

PS: o filme em inglês se chama "Secondhand Lions". Assistam e entenderão o motivo do nome.

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